Repetição espaçada é rever o mesmo material em intervalos que vão crescendo, antes de ele sumir da memória. Ela funciona porque a gente esquece rápido: nos experimentos clássicos do psicólogo alemão Hermann Ebbinghaus, um dia depois de decorar uma lista ele já precisava refazer cerca de dois terços do trabalho. Na prática, isso vira uma agenda simples: rever depois de 1 dia, de 3 dias, de uma semana e de 15 dias, e ir espaçando mais a partir daí.
Foi a repetição, junto com escutar e ler muito, que destravou o meu inglês. Aqui eu fico só nela: quanto a gente esquece, quando revisar e como revisar sem transformar o estudo numa prova. O resto, sobre como o cérebro aprende um idioma, está em como a gente aprende um idioma.
Assistir à aulaA curva do esquecimento, com os números certos
No fim do século 19, Ebbinghaus fez o experimento em si mesmo: decorou listas de sílabas sem sentido, escolhidas de propósito para que nenhuma tivesse ligação com o que ele já sabia. Depois de um tempo, media quanto trabalho precisava para decorar a mesma lista de novo (Memory, capítulo 7):
| Tempo depois de decorar | Trabalho que ele precisou refazer |
|---|---|
| 20 minutos | cerca de 42% |
| 1 hora | cerca de 56% |
| 1 dia | cerca de 66% |
| 6 dias | cerca de 75% |
| 31 dias | cerca de 79% |
Em 2015, dois pesquisadores holandeses refizeram o experimento e chegaram a uma curva parecida (Murre e Dros, PLOS ONE).
Uma correção minha. Nas aulas do Guia de Idiomas eu falei em 60% esquecidos em 20 minutos e 80% em um dia. Voltei à fonte original para escrever este texto, e o certo é uns dois terços em um dia. Os 80% só aparecem perto de um mês.
O que importa é o desenho: a queda é forte nas primeiras horas e depois fica lenta. E sílabas sem sentido são o pior caso. Com material que tem significado e que te interessa, você esquece menos, mas esquece. É por isso que na escola você saía da aula achando que tinha entendido tudo e no dia da prova não lembrava de nada.
Espalhar as revisões funciona melhor do que concentrar
O próprio Ebbinghaus percebeu que, quando são muitas repetições, espalhá-las no tempo é "decididamente mais vantajoso" do que fazer todas de uma vez (Memory, seção 34). Mais de um século depois, uma revisão que juntou 317 experimentos, de 184 artigos, chegou à mesma conclusão: sessões espaçadas fazem lembrar mais do que sessões concentradas, e quanto mais tempo você quer lembrar, maior deve ser o intervalo (Cepeda et al., 2006).
Um experimento com mais de 1.350 pessoas mediu isso com mais precisão. O melhor intervalo entre o primeiro estudo e a revisão ficou por volta de 20% do tempo até a prova, quando a prova era dali a algumas semanas, e caiu para uns 5% quando era dali a um ano (Cepeda et al., 2008). Para lembrar de uma coisa daqui a um mês, isso daria uma revisão perto de seis dias depois do primeiro estudo. Esse experimento testou uma revisão só. Com idioma a gente revisa várias vezes, e aí os intervalos vão crescendo.
E não existe um número mágico de repetições. Uma meta-análise de 26 estudos sobre vocabulário encontrou um efeito médio da repetição, que varia bastante conforme a pessoa, o material e o jeito de estudar (Uchihara, Webb e Yanagisawa, 2019).
Uma agenda que funciona: 1, 3, 7 e 15 dias
Em vez de rever alguma coisa só daqui a uma semana ou quinze dias, coloque no seu plano: rever depois de 1 dia, depois de 3, depois de uma semana, depois de 15 dias, e daí em diante com intervalos maiores. Cada revisão no intervalo certo avisa o cérebro de que aquilo é importante, e ele passa a guardar por mais tempo.
Revisar aqui quer dizer reescutar o mesmo áudio, reler o mesmo texto, fazer de novo o mesmo shadowing. É uma revisão tranquila, sem cara de prova, e ela cabe muito bem no tempo morto: o áudio que você estudou ontem pode tocar no trânsito de hoje.
Tente lembrar antes de olhar
Tem um detalhe que faz diferença. Num experimento com vocabulário de língua estrangeira, estudar de novo as palavras que o aluno já tinha acertado não mudou quanto ele lembrava na prova final. Testar de novo, ou seja, tentar lembrar sem ver a resposta, teve um efeito grande (Karpicke e Roediger, 2008). E os alunos não faziam ideia disso: as previsões que eles faziam sobre o próprio desempenho não tinham relação com o resultado.
Na revisão de um material inteiro, isso quer dizer tentar entender o áudio antes de olhar o texto, ou tentar falar a frase antes de ouvir. Nos flash cards, é tentar lembrar a palavra antes de virar a carta.
Flash cards para as palavras que insistem em fugir
Para palavras soltas, os aplicativos de flash cards fazem a agenda sozinhos, ajustando o intervalo de cada palavra conforme você acerta ou erra. Muitos usam variações do SM-2, um algoritmo do pesquisador polonês Piotr Woźniak, que escreveu o primeiro programa SuperMemo em 1987. No SM-2 original, a primeira revisão vem depois de 1 dia, a segunda depois de 6, e daí em diante o intervalo é multiplicado por um fator de facilidade que começa em 2,5 e diminui quando você tem dificuldade (descrição do próprio Woźniak). Dá para montar os seus cartões no Anki, por exemplo.
Só que, convenhamos, revisar palavra por palavra a cada 1, 3 e 7 dias não é das coisas mais divertidas. Por isso vale rever o material inteiro, com contexto, e deixar os flash cards para as palavras que insistem em fugir.
Da caixa do "conheço" para a do "domino"
Existe uma diferença grande entre ter tido contato com uma palavra e dominar essa palavra. Você só consegue falar e escrever sem ficar pensando antes quando domina. A repetição é o que leva as coisas de uma caixa para a outra: ela fortalece o que você já viu e mostra onde você ainda tem dificuldade.
Quando você sente que entende quase tudo mas não consegue usar, muitas vezes o que falta é voltar ao mesmo material mais vezes. Técnicas de fala como o shadowing e falar sozinho são repetição com a boca, e por isso ajudam tanto nessa passagem.
Como o Lanna agenda as revisões
No Lanna, cada material que você cria já entra numa agenda de revisão de 1, 3, 5, 7, 15 e 30 dias, e as revisões do dia aparecem no plano de hoje, na tela inicial. As palavras que você salva enquanto estuda vão para os Flash Cards, e cada uma volta num intervalo que depende da sua resposta: se você errou, ela volta no dia seguinte; se acertou, o intervalo cresce. Dá para fazer o mesmo com um calendário e um caderno, desde que você cumpra as datas.