A gente aprende um idioma do mesmo jeito que aprende qualquer coisa: com interesse, prática e repetição. No caso do idioma, praticar quer dizer, antes de tudo, entender muita coisa. Escutar e ler muito conteúdo que você compreende, de preferência sobre assuntos de que você gosta, até o cérebro achar as palavras sem esforço. A gramática e os exercícios entram depois, como apoio. Foi assim que eu cheguei à fluência no inglês e no francês e ao intermediário no italiano, sem morar fora e sem curso regular.

Como aprendemos idiomas, aula 1.2 do Guia de Idiomas Assistir à aula
A aula 1.2 do Guia de Idiomas, o curso que eu lancei em 2020. Os números da curva do esquecimento que eu cito no fim do vídeo estão errados; a correção está no texto sobre repetição espaçada.

O que acontece no cérebro quando você aprende

Simplificando bastante: tudo o que você aprende fica guardado no cérebro, e para buscar uma informação ele usa conexões entre neurônios, as sinapses. Quando você está aprendendo, essas conexões são fracas e a busca é lenta. É por isso que no começo você precisa pensar muito antes de falar, e prestar muita, muita atenção para entender quem está falando com você.

Cada vez que você reencontra uma palavra ou uma estrutura, a conexão fica mais forte e a busca fica mais rápida. A neurociência chama um dos mecanismos desse fortalecimento de potenciação de longa duração (Lynch, 2004). Na prática, quanto mais exposição e repetição, mais fluido fica entender, falar e escrever.

Aprender a dirigir é parecido. No começo, embreagem, marcha, freio e retrovisor ao mesmo tempo parecem impossíveis. Um tempo depois, você chega em casa e mal lembra do caminho. Com o idioma, esse ponto é o que a gente chama de fluência: você já teve tanto contato com as palavras que elas saem sem você procurar.

O cérebro guarda o que volta a aparecer

O cérebro representa uns 2% do peso do corpo e responde por uns 20% da energia que o corpo gasta (Raichle e Gusnard, 2002). Imagine se ele guardasse tudo o que você viu, ouviu e sentiu no dia, o tempo todo passando pela sua cabeça. Seria um caos. Então, em vez de reclamar da sua memória, agradeça: ela descarta o que não volta a aparecer. O trabalho de quem estuda um idioma é fazer as palavras voltarem a aparecer.

Quanto a gente esquece, em quanto tempo e quando revisar, eu mostro com os números da pesquisa no texto sobre repetição espaçada. Aqui basta a ideia: o que você vê uma vez só tende a sumir.

A gente aprende o que entende

Na aula sobre o método natural eu faço um teste com uma frase em alemão. Na primeira vez que você escuta, provavelmente não entende nada. Depois você escuta lendo a frase, depois com a tradução ao lado, e por fim só o áudio outra vez. Na última passada você entende muito mais do que na primeira, porque agora sabe o que está sendo dito.

A ideia vem do linguista Stephen Krashen: a gente adquire um idioma quando entende mensagens, de preferência um pouco acima do nível em que já está (Principles and Practice in Second Language Acquisition). No curso eu transformo isso numa régua prática: entender pelo menos uns 80% do que você está ouvindo ou lendo. Esse percentual é meu (o Krashen não fixa número) e serve para escolher material. Rádio ou filme sem legenda num idioma que você mal conhece ensinam muito pouco no começo: você não entende, não absorve e ainda se frustra.

É o caminho da criança com a língua materna. Ela passa milhares de horas ouvindo gente que explica, aponta e repete, e só vai estudar gramática na escola, anos depois de já falar. A estrutura do idioma chega pelo que ela ouve. Com o adulto é parecido: primeiro o contato com o idioma, depois a gramática como apoio para as dúvidas que aparecem. Falo disso em como aprender gramática de forma natural.

Método natural de aprendizagem, aula do Guia de Idiomas Assistir à aula
A aula do Guia de Idiomas sobre o método natural, com o teste da frase em alemão logo no começo. Os 80% que eu cito são a régua do curso; o Krashen não fixa percentual.

Ler e escutar ao mesmo tempo é o jeito mais simples de fazer isso no dia a dia, e é o que o modo Escutar e ler do Lanna faz: ele destaca cada frase enquanto o áudio toca, mostra a tradução das frases quando você liga a opção e traduz a palavra que você toca, com um botão para salvá-la.

Interesse: o material precisa te agradar

O interesse é o que faz você voltar ao idioma amanhã, e depois de amanhã. Nunca, e eu digo nunca, estude alguma coisa só porque está no idioma que você está aprendendo. Se você não gosta de romance, não leia romance em francês. Se gosta de ioga, veja ioga no idioma.

Isso muda o volume de horas sem você perceber. Comigo aconteceu com a leitura: antes de estudar idiomas eu não lia muito, e foi lendo em outros idiomas coisas que me interessavam que eu ganhei o hábito da leitura, até em português.

Interesse também tem a ver com emoção, e emoção ajuda a gravar. Desenvolvo essa parte, com o teste do primeiro beijo e as músicas do meu italiano, em mindset para aprender idiomas.

Os dois tipos de estudo

Existem dois jeitos de passar tempo com o idioma, e os dois contam.

O estudo intencional é quando você senta com caneta e caderno, presta atenção, anota, pesquisa e se questiona. O não intencional é o tempo com o idioma sem essa atenção toda: um vlog, um podcast, um livro lido de boa, uma música. Você nem percebe que está estudando, e é aí que as palavras voltam a aparecer em contextos diferentes, várias vezes. Ele é o menos falado quando o assunto é idioma, e faz muita falta quando some.

Os dois precisam acontecer todo dia, e o não intencional deve ser o maior. Na rotina que eu seguia, de cerca de 2h30 por dia, só meia hora era de estudo sentado. O resto era escuta, leitura e fala espalhadas pelo trânsito, pelo almoço e pelo banho. Os blocos estão no método para aprender um idioma sozinho, e a montagem da rotina, em como criar uma rotina de estudos.

Por que um idioma leva mais tempo que outro

Quatro coisas pesam. A primeira é a distância entre o idioma que você fala e o que você quer aprender. Para quem fala português, italiano e espanhol são muito mais simples do que japonês, que tem outro vocabulário e outra escrita. No italiano, eu cheguei ao intermediário em nove meses de estudo. O francês eu comecei em 2016, e em 2019 já viajava e conversava.

A segunda é quanto tempo você passa com o idioma por dia. A terceira é se você já aprendeu outro idioma antes: as línguas têm muitas conexões entre si, e a cada idioma você também aprende mais sobre o seu jeito de estudar.

A quarta é como você usa as horas. Na escola tradicional, com explicação, exercício e prova, a gente passa anos em contato com a gramática do idioma e muito pouco com o idioma em si. Só que o idioma é a fala, a escrita, a compreensão e o vocabulário, e a gramática é uma parte desse todo. Quantas horas isso dá, com as contas, está em quanto tempo leva para aprender um idioma.

Aprender, memorizar, utilizar

Eu resumo o processo em três passos, nessa ordem. Aprender é consumir muito conteúdo que você entende e de que gosta. Memorizar é rever esse conteúdo em intervalos, antes que ele suma, e isso está detalhado no texto sobre repetição espaçada. Utilizar é falar, escrever e conversar com o que você aprendeu, com técnicas como o shadowing e falar sozinho. Se um dos três está faltando no seu dia, é por ali que vale começar a mexer.

Por que no começo parece rápido e depois trava

No começo, as palavras mais usadas se repetem o tempo todo, então você absorve rápido e sente que evoluiu muito. Depois, as palavras novas aparecem menos e só em contextos específicos, e a evolução fica mais lenta. Isso acontece com qualquer coisa, de instrumento musical a idioma. A saída é passar mais tempo com o idioma e se desafiar com conteúdo um pouco mais difícil, como explico em como superar o nível intermediário.