Dá para aprender um idioma sozinho, sim. Eu falo inglês e francês com fluência e cheguei ao nível intermediário no italiano sem nunca ter morado fora e sem fazer curso regular. O que me levou até lá foi escutar muito, ler muito, voltar várias vezes ao mesmo material e revisar em intervalos. Talento especial e aplicativo mágico não entraram nessa conta.
Com o tempo, organizei isso em quatro pilares: saber por que você está aprendendo, passar muito tempo com o idioma, estudar com material de que você gosta e seguir um sistema simples no dia a dia.
De onde vem esse método
O inglês eu estudei desde pequeno, e sempre mal. Sofri com ele na escola e no começo da vida profissional. Ele só melhorou de verdade quando eu passei a consumir conteúdo real, que eu entendia e que me interessava, e a voltar a esse conteúdo várias vezes, em vez de só estudar regras.
O francês eu comecei em 2016, e em 2019 já viajava e conversava. No italiano, cheguei ao intermediário em nove meses de estudo e dei uma pausa. Em 2020 juntei o que funcionou num curso em vídeo, o Guia de Idiomas, com cerca de 30 aulas, que hoje estão públicas no canal do Guia de Idiomas no YouTube. Também acompanhei alunos do curso como mentor de estudos.
Hoje eu estudo com o Lanna, o app que comecei a construir em agosto de 2023. Mas tudo o que está aqui funciona com um vídeo legendado, um caderno e um calendário.
E eu não tenho memória boa, nem talento especial. Os mitos que mais travam quem estuda sozinho, da idade ao "só aprende quem mora fora", estão no texto sobre mindset para aprender idiomas.
Assistir à aulaPilar 1: saber por que você está aprendendo
Se você não sabe por que está estudando, o idioma vira mais uma obrigação no seu dia: "tenho que ir na aula", "tenho que estudar". E obrigação a gente abandona. O objetivo precisa ser maior do que o idioma: um emprego, morar fora, entender melhor um país, conhecer gente.
No curso, a primeira tarefa é preencher uma folha com cinco respostas:
- Por que eu quero aprender esse idioma?
- Quantas horas por dia vou estudar?
- Em que horário?
- Por quanto tempo vou seguir essa rotina até chegar ao meu objetivo?
- Em que outros momentos do dia vou ficar em contato com o idioma?
Um exemplo preenchido, inventado só para ilustrar (não é o meu plano):
Vou aprender francês porque quero morar na França. Para isso, vou estudar uma hora todo dia, de manhã, durante um ano, porque daqui a um ano é quando eu quero ir. Vou escutar francês indo e voltando do trabalho e ler no almoço e antes de dormir. Preciso focar em compreensão e fala, porque é o que eu vou usar quando morar em Paris.
Cole a folha na parede de onde você estuda, para olhar nos dias em que der vontade de parar. O passo a passo está em como montar um plano de estudos.
Pilar 2: muito tempo com o idioma
É o pilar que mais pesa. Quanto mais tempo exposto ao idioma, melhor, do primeiro ao último dia.
Para ter uma ordem de grandeza: o instituto que treina os diplomatas americanos estima de 24 a 30 semanas de curso em tempo integral para um falante de inglês chegar a um nível profissional em francês, italiano ou espanhol. São de 552 a 690 horas de aula, mais umas 17 horas por semana de estudo por conta própria (Departamento de Estado dos EUA). A conta foi feita para quem fala inglês, então não prevê o seu caso. Ela mostra a escala: estamos falando de centenas de horas.
Agora pense no jeito mais comum de estudar aqui no Brasil: uma aula de uma hora por semana, quatro semanas por mês, dez meses por ano. Dá 40 horas por ano. Nesse ritmo, as 600 horas que eu uso como referência no curso levariam 15 anos. É por isso que tanta gente passa anos na escola de idiomas e não fala.
E se você me perguntar se com 600 horas você fica fluente, a resposta honesta é que eu não sei. Depende do idioma, de quanto você já sabe, de já ter aprendido outra língua antes e de como você usou essas horas. O número serve de base para o plano. As contas por hora de estudo estão em quanto tempo leva para aprender um idioma.
O que eu fazia para chegar nessas horas
A conta só fecha juntando os dois tipos de estudo: o intencional, sentado e com caderno, e o não intencional, o tempo com o idioma sem tanta atenção, como um podcast ou uma música. Explico a diferença em como a gente aprende um idioma.
A rotina que eu seguia somava cerca de 2h30 por dia, e só meia hora era de estudo sentado:
- de manhã, 30 minutos de estudo intencional ao acordar, 10 minutos falando sozinho no banho e 40 minutos escutando e falando no caminho do trabalho;
- à tarde, 20 minutos de leitura no almoço;
- à noite, 40 minutos escutando e falando na volta para casa e 15 minutos de leitura antes de dormir.
Somando os blocos, são 2h35. Quase tudo cabe no tempo morto e no tempo livre: o banho e o caminho do trabalho, o almoço e a hora antes de dormir. A rotina completa, com o que fazer em cada bloco, está em como criar uma rotina de estudos.
Pilar 3: material de que você gosta e que você entende
Se estudar for sofrimento, você para. Por isso o material é a peça central do método. No curso eu digo que o material ideal é compreensível, é interessante e está no formato certo para o seu nível.
Compreensível
Você precisa entender pelo menos uns 80% do que está ouvindo ou lendo. Esse número é a régua que eu uso; nenhum estudo fixa esse percentual. A ideia por trás vem do linguista Stephen Krashen: a gente adquire um idioma quando entende mensagens um pouco acima do próprio nível (Principles and Practice in Second Language Acquisition). Se você entende 50% de um podcast, ainda não é a hora dele. Volte para algo mais fácil, que ele chega.
Interessante
Nunca, e eu digo nunca, assista ou leia alguma coisa só porque está no idioma que você está aprendendo. Se você não gosta de romance, não vai ler um romance só porque ele está em francês. Quando comecei o italiano, fui atrás de música, esporte, notícias e cultura, que eu já consumia em português. Essa parte está em como aprender italiano sozinho.
No formato certo
O formato muda conforme o idioma está mais perto ou mais longe do português. No começo, é mais ou menos assim:
| Característica | Espanhol, italiano, francês | Inglês |
|---|---|---|
| Áudio | No idioma | No idioma |
| Legenda | No idioma | No idioma, com tradução ao lado |
| Velocidade | Normal, evitando quem fala muito rápido | Lenta |
| Duração | De 3 a 5 minutos | De 1 a 3 minutos |
| Tema | Dia a dia, conversas reais, exemplos de pronúncia | Frases simples, conversas curtas |
| Quanto você entende | De 80% a 90% | De 80% a 90% |
O vídeo é curto porque em poucos minutos já aparece muita coisa nova, e vídeo curto dá para repetir várias vezes. Tem mais em como escolher o conteúdo certo.
Achar esse material e preparar tudo em volta dele é a parte que mais toma tempo. No Guia de Idiomas eu ensinava o método, mas o trabalho de achar o material, transcrever e montar exercícios continuava com o aluno. O Lanna faz essa parte. Você cola o link de um vídeo curto do YouTube e ele vira um material com o áudio original dividido em frases, cada uma com o seu texto. No Escutar e ler, você toca numa palavra para ver a tradução e pode salvá-la nos Flash Cards, e o material entra numa agenda de revisão de 1, 3, 5, 7, 15 e 30 dias.
Pilar 4: um sistema
Sem sistema a gente trava, fica rolando o Instagram e conclui que não tem tempo. O sistema do curso tem três partes: a folha do porquê, o plano de estudo (o que estudar e com quais técnicas) e a rotina (quando).
O plano é montado em cima do estudo intencional. Para cada habilidade, escolha técnicas do seu nível e de que você goste, e fique nelas por pelo menos 60 dias. É o tempo de aprender a técnica de verdade antes de trocar.
| Habilidade | Técnicas | Quando | Leia mais |
|---|---|---|---|
| Escutar | Ler e escutar ao mesmo tempo, várias vezes o mesmo material | Desde o primeiro dia; podcast, audiobook e rádio só quando você entender uns 80% | Listening |
| Ler | Leitura intensiva, com anotações, e extensiva, por prazer | Intensiva no começo, extensiva quando o nível deixar | Leitura |
| Falar | Shadowing, falar sozinho, conversar com nativos | Shadowing e falar sozinho cedo; conversa quando você já consegue se expressar um pouco | Shadowing, falar sozinho |
| Escrever | Escrever primeiro em português e traduzir, tradução bidirecional, escrever sobre um tema | Começar pelo português | Escrita, tradução bidirecional |
| Gramática | Tirar a dúvida quando ela aparecer, com vídeos de explicação | Depois de ter contato com o idioma, como apoio | Gramática |
| Vocabulário | Contexto, música, revisão em intervalos | Sempre | Vocabulário, repetição espaçada |
As minhas técnicas favoritas são a tradução bidirecional, escrever sobre um tema e falar sozinho.
Sobre a gramática: ela entra no plano como apoio, nunca como o único estudo. Eu usei muito vídeo em português para entender umas coisas da gramática do francês que não entravam na minha cabeça de jeito nenhum, nem com explicação em francês.
Estudar sozinho e ainda conversar com gente
Hoje você não precisa de intercâmbio para conversar com um nativo. O HelloTalk e o Tandem conectam você, no plano gratuito, com gente que quer aprender português, numa troca de idiomas, e no italki dá para pagar por conversa com professores e nativos. A minha dica principal é escolher uma plataforma só e ficar nela. É igual à Netflix: com opção demais, você dorme sem escolher nada. O resto está em como praticar com nativos online.
Quando parece que você parou de evoluir
No começo você sente que aprendeu muito, e rápido, e no intermediário parece que travou. É normal: as palavras mais usadas já se repetiram muito, e as novas aparecem menos. A saída é mais tempo com o idioma e temas mais difíceis, como explico em como superar o nível intermediário.
Por onde começar hoje
- Responda às cinco perguntas da folha, com um porquê bem específico.
- Escolha um vídeo de 1 a 5 minutos, com legenda no idioma, sobre algo de que você gosta e que você entende uns 80%.
- Defina o horário do estudo intencional, mesmo que seja meia hora, e onde entra o não intencional: trânsito, banho, academia, cozinha.
- Amanhã, volte ao mesmo vídeo. Depois de amanhã também.