O conteúdo certo para aprender um idioma tem três qualidades: você entende pelo menos uns 80% dele, o assunto te interessa de verdade e ele tem as características certas para a fase em que você está, como áudio e legenda no idioma, velocidade e duração. Quando uma delas falha, o estudo rende pouco. Material difícil demais não ensina quase nada, e material chato você larga em poucos dias.
Eu aprendi isso do jeito difícil. Estudei inglês desde pequeno e sofri com ele no ensino médio e no começo da vida profissional. Só melhorei quando mudei o que eu estudava e passei a escutar e ler muito conteúdo real, de assuntos de que eu gostava, no meu nível. Depois vieram o francês e o italiano, do mesmo jeito. É o assunto da aula sobre o material ideal do Guia de Idiomas, o curso que eu lancei em 2020.
Assistir à aulaPor que qualquer coisa no idioma não serve
Muita gente passa horas com um filme ou com o rádio ligado só porque está no idioma que quer aprender. Sem falar do tempo perdido procurando o que ver, aquela sensação de rolar o catálogo da Netflix e não escolher nada. Às vezes o conteúdo não é interessante o bastante, às vezes está muito acima do nível, e em vez de ajudar, ele desmotiva.
Então, nunca, e eu digo nunca, assista ou leia uma coisa só porque ela está no idioma que você quer aprender. Assista porque você se interessa pelo que vai ver.
Compreensível: a régua dos 80%
Você precisa entender pelo menos uns 80% do que está lendo, ouvindo ou assistindo. Se não pega nem a mensagem principal, o material está acima do seu nível, e o melhor é dar um passo atrás.
Esse número é a régua do curso; nenhum estudo fixa esse percentual. A ideia por trás dele vem do linguista Stephen Krashen: a gente adquire um idioma quando entende mensagens que estão "um pouco além" do nível em que já está (Krashen, 1982, p. 21). Ele não diz quanto é esse entender. A teoria, e as críticas a ela, estão no texto sobre input compreensível.
Quando você quiser muito ler uma coisa um pouco mais difícil, pode traduzir. Não tem problema nenhum, e isso ajuda até na escrita. Só que aí vale voltar ao mesmo material várias vezes, até ele ficar confortável. É assim que o que estava acima do seu nível passa a estar dentro dele.
Interessante: é o que faz você voltar amanhã
Aprender um idioma não precisa ser chato. Uma das coisas mais legais do processo é o mundo de conteúdo que se abre, e o idioma passa a ser o caminho para o que você já gosta de fazer.
Se você ama música pop, procure pop no idioma. Imagine aprender a tocar piano com vídeos em italiano, ou a editar vídeo com tutoriais em inglês. Se gosta de surf, consuma histórias de surf. Se gosta de maquiagem, existem centenas de canais sobre isso em qualquer idioma.
E a escolha é pessoal. Se você não se identifica com um conteúdo ou com quem fala, procure outro, sem culpa. Gostar de quem você está ouvindo faz você passar mais tempo com a mesma pessoa, e mais tempo com o idioma.
As seis características do material ideal
Compreensível e interessante é o começo. Na aula, eu separo as partes mais técnicas do material em seis:
- O áudio está no idioma que você aprende. Escutar é uma das chaves da aprendizagem, desde o primeiro dia.
- Tem texto ou legenda no idioma. Ler enquanto escuta associa o som às palavras e as palavras ao som, o que ajuda a compreensão e a pronúncia.
- A velocidade é adequada para você. Se não está entendendo porque está rápido, diminua um pouco a velocidade.
- A duração combina com o seu nível. No começo, um vídeo de 1 a 3 minutos já traz muita coisa nova, e vídeo curto dá para repetir várias vezes.
- O tema acompanha a sua fase. Você não vai estudar lançamento de foguete ou regra de golfe na primeira semana; comece por conversas reais e assuntos do dia a dia.
- Você entende pelo menos 80%, em qualquer nível.
Podcast com transcrição é um bom exemplo de formato certo: é conversa de verdade, no jeito que a gente fala, com o texto do lado.
O material muda com a fase
No curso, eu divido o aprendizado em três fases. Na primeira, você está se conectando com o idioma. Na segunda, você já entende e consegue se expressar um pouco falando e escrevendo, mas ainda sem conforto. Na terceira, fala e entende a maior parte dos assuntos sem muito esforço.
As características mudam de uma fase para outra, e mudam também conforme o idioma está mais perto ou mais longe do português:
| Fase | Espanhol, italiano ou francês | Inglês |
|---|---|---|
| 1: legenda | No idioma | Com tradução, para chegar aos 80% |
| 1: velocidade | Normal, evitando quem fala muito rápido | Lenta, para absorver a pronúncia |
| 1: duração | 3 a 5 minutos | 1 a 3 minutos |
| 1: tema | Dia a dia, explicações, exemplos de pronúncia, conversas reais | Frases simples, conversas curtas, exemplos de pronúncia |
| 2 | Vídeos de 3 a 10 minutos, podcasts, temas do seu interesse, expressões do dia a dia e gramática explicada no idioma | Legenda só no idioma, velocidade normal, vídeos um pouco mais longos e temas do seu interesse |
Na terceira fase, a régua continua a mesma. Em todas elas, o alvo é entender de 80% a 90%.
Por que histórias funcionam tão bem
Quando eu falo em histórias, pense em qualquer conteúdo que você veria no seu idioma: um vlog de viagem, uma entrevista, um livro, um episódio de série. Elas ajudam de dois jeitos.
O primeiro é o tempo. Uma parte grande do progresso depende de quanto tempo você passa com o idioma, e uma história boa faz esse tempo passar sem você perceber que está estudando.
O segundo é o vocabulário. O cérebro trabalha com associação. Lembra da brincadeira da escola de dizer uma palavra ligada à última? Melancia, vermelho, tomate, salada, saúde. Numa história sobre um tema, as palavras aparecem assim, uma puxando a outra. Num texto em inglês sobre o clima, coal, climate change, concerns, drought e shortages aparecem juntas. Um estudo de 1997 ajuda a entender por que isso importa: palavras apresentadas em grupos da mesma categoria, como olho, nariz, orelha, boca e queixo, atrapalharam o aprendizado, e grupos ligados por uma cena, como sapo, verde, pular, lago, escorregadio e coaxar, ajudaram (Tinkham, 1997).
Se você dá aula, existe um método inteiro montado em cima de histórias, o Story Listening, da pesquisadora Beniko Mason, que começou com o ensino de inglês no Japão. O professor conta uma história e, nas palavras que a turma talvez não entenda, desenha, faz um gesto, usa um sinônimo ou uma tradução rápida, só para a história ficar compreensível. Ninguém decora lista. Mason e Krashen descrevem o input ideal como compreensível, muito interessante, rico em detalhes e abundante, e avisam que tudo isso ainda são hipóteses (Krashen e Mason, 2022). Num estudo que eles citam, a turma que ouviu a história e depois fez exercícios aprendeu mais palavras no total, mas gastou 70 minutos. A que só ouviu gastou 15 e aprendeu mais palavras por minuto (Mason e Krashen, 2004). A fundação Stories First tem livros graduados grátis em francês, espanhol, inglês e alemão simples (Stories First).
Onde encontrar
Com tanto canal e formato por aí, achar um material com tudo isso dá trabalho de pesquisa. Mas é esse trabalho que deixa o estudo produtivo e mantém a motivação. Algumas dicas que eu passava no curso:
- Prefira conteúdo com áudio e legenda. No YouTube, a legenda feita pelo próprio criador costuma ser mais confiável do que a automática. O próprio YouTube avisa que a legenda automática pode diferir do que foi dito por causa de pronúncia, sotaque, dialeto ou barulho de fundo (ajuda do YouTube).
- Procure o n+1. Se o seu nível é n, busque um material um pouco acima dele. Conteúdo sem nada de novo deixa você parado onde está.
- Fique com um criador por um tempo. Você se acostuma com o jeito de falar dele e entende cada vez mais.
- Depois, mude de autor e de assunto. Isso traz palavras e expressões novas e fortalece as que você já conhece.
Para vídeo, tem o guia de como usar o YouTube para aprender inglês e a lista de canais do YouTube por nível. Para texto, veja como combinar leitura intensiva e extensiva.
Depois de escolher
Escolher é metade do trabalho. A outra metade é passar tempo com o material: escutar lendo, anotar o que você não conhece, voltar a ele nos dias seguintes. O jeito de fazer isso está em como melhorar o listening, e o porquê de voltar em datas certas, em repetição espaçada. Quando o material já estiver fácil, use ele para falar, com o shadowing.
Comece pelo tema
No Lanna, dá para começar pelo assunto. Você escreve o tema, escolhe se quer uma conversa ou uma história, o nível, de A1 a C2, e o tom, e ele escreve o texto nesse nível, com áudio frase a frase. Também dá para partir de um texto seu ou de um vídeo curto do YouTube, que mantém o áudio original com a legenda sincronizada. O interesse continua sendo escolha sua, e a régua dos 80% também: se o texto ficou difícil, crie outro com um nível abaixo.
As outras técnicas, de todas as habilidades, estão no método para aprender um idioma sozinho.