Input compreensível é a mensagem no idioma que você está aprendendo e que você consegue entender, com a ajuda do contexto. A ideia é do linguista Stephen Krashen, que propôs que a gente adquire um idioma quando entende linguagem que está "um pouco além" do nível em que já está: é o famoso i + 1 (Krashen, 1982, p. 21). Na prática, quer dizer escutar e ler muito material de que você goste e que você entenda quase todo. É uma hipótese, e tem críticas importantes, que estão no fim.
No Guia de Idiomas, o curso que eu lancei em 2020, eu transformei isso numa régua: entender pelo menos uns 80% do que você ouve ou lê. Na aula sobre o método natural, eu digo que é isso que a teoria do Krashen diz. Corrijo aqui: o percentual é meu. O Krashen não fixa número nenhum, e a pesquisa sobre vocabulário usa outra régua, que eu explico abaixo.
Assistir à aulaUm teste para sentir a ideia
Na aula, eu faço um teste com uma frase em alemão. Na primeira vez que você escuta, provavelmente não entende nada. Depois você escuta lendo a frase, depois com a tradução do lado, e no fim só o áudio de novo. Na última passada você entende muito mais do que na primeira, porque agora sabe o que está sendo dito. O som era o mesmo. O que mudou foi o quanto ele ficou compreensível para você, e é aí que o aprendizado acontece.
O que o Krashen propôs
Krashen, que é professor emérito da University of Southern California, deixa baixar de graça no site dele os dois livros em que apresentou a teoria, de 1981 e de 1982 (Krashen, 1981). No segundo, Principles and Practice in Second Language Acquisition, as ideias aparecem como cinco hipóteses:
- Aquisição e aprendizado são coisas diferentes. Adquirir é um processo que acontece sem você perceber, como a criança com a língua materna. Aprender é conhecer as regras de forma consciente (p. 10).
- As estruturas de um idioma são adquiridas numa ordem mais ou menos previsível, que o estudo e o exercício não conseguem mudar muito (p. 12).
- O que você aprendeu de forma consciente funciona como um monitor, que confere e corrige o que você diz quando há tempo e atenção para isso (p. 15).
- A gente adquire entendendo input que contém o próximo passo, o i + 1 (p. 20).
- Fatores emocionais, como ansiedade, motivação e autoconfiança, funcionam como um filtro que deixa passar mais ou menos input. Essa ideia, o filtro afetivo, foi proposta antes por Dulay e Burt, em 1977, e o Krashen a adotou (p. 30 e 31).
O que o i + 1 quer dizer de verdade
Tem duas partes da hipótese do input que quase ninguém cita, e elas mudam a forma de estudar.
A primeira: se você entende o que está ouvindo ou lendo, e se tem input suficiente, o i + 1 aparece sozinho. O Krashen chega a dizer que o melhor input nem deveria tentar mirar o i + 1 de propósito, como fazem as aulas com a "estrutura do dia" (Krashen, 1982, p. 21 e 22). Traduzindo para o dia a dia: você não precisa caçar o material que ensina exatamente a próxima regra. Precisa de muito material que você entende.
A segunda: a capacidade de falar emerge com o tempo, e para ele não dá para ensiná-la de forma direta. A fala aparece quando a pessoa se sente pronta, primeiro com erros, e a precisão vem conforme ela entende mais input (p. 22). Dá para falar desde o primeiro dia, claro. O ponto é que falar bem depende muito de quanto você escutou e leu antes.
Duas réguas: 80% e 98%
A minha régua é sobre a mensagem: você entende pelo menos uns 80% do que está sendo dito ou escrito, ou seja, pega a história, a ideia, o assunto.
Na pesquisa, a régua costuma ser outra, e mede palavras. Um estudo muito citado, de Hu e Nation, calculou que, para ler por prazer sem ajuda, a pessoa precisa conhecer cerca de 98% das palavras do texto (Hu e Nation, 2000). Em 2023, um grupo de pesquisadores refez o experimento com 104 adultos e não conseguiu reproduzir o resultado por completo; o número original tinha saído de 66 universitários (Kremmel e outros, 2023).
As duas réguas apontam para o mesmo lado: o material tem que ser fácil para você. E nenhuma das duas exige entender tudo. O próprio Krashen, num texto de 2022 com a pesquisadora Beniko Mason, escreve que o input compreensível pode ter partes que você ainda não entende, algum ruído, e que isso pesa menos quando o assunto é muito interessante. Para eles, o input ideal é compreensível, envolvente a ponto de você esquecer que está em outro idioma, rico em detalhes e abundante (Krashen e Mason, 2022).
Como aplicar no dia a dia
Antes de escolher um podcast, um audiobook ou um vídeo mais longo, faça o teste da aula 2.1.2: escute um pedaço. Se entender uns 50%, ainda não é a hora. Espere chegar aos 80%, e continue no material que você já entende. Não adianta ficar se esforçando para entender; tem que ser fluido.
Assistir à aulaDepois, algumas regras que eu uso:
- Escolha pelo interesse. Material compreensível e chato você larga. Os critérios para escolher estão em como escolher o conteúdo certo.
- Leia enquanto escuta. Com o texto na frente, você entende o que antes passava rápido e liga o som à palavra. O passo a passo está em como melhorar o listening.
- Repita o mesmo material. Na aula do método natural eu digo que a repetição é o que leva você do estado passivo para o ativo, de entender para conseguir usar.
- Quando quiser ler algo um pouco acima do seu nível, traduza sem culpa, e volte ao texto várias vezes até ele ficar confortável.
- Use a gramática como apoio, para as dúvidas que aparecerem no caminho, como eu explico em como aprender gramática de forma natural.
O modo Escutar e ler do Lanna foi feito para esse tipo de estudo: ele destaca cada frase enquanto o áudio toca, mostra a tradução das frases quando você liga a opção e traduz a palavra que você toca, com um botão para salvá-la. O material pode vir de um vídeo curto do YouTube, de um texto seu ou de um tema, com o nível que você escolher, de A1 a C2.
O filtro afetivo
A ideia de que a emoção pode bloquear a entrada do idioma é útil para pensar no medo de falar e na ansiedade de estudar sob pressão. Mas ela é uma hipótese, proposta por Dulay e Burt em 1977 e adotada pelo Krashen (Krashen, 1982, p. 31). O que fazer com o medo na prática está em como perder o medo de falar.
As críticas
A teoria do Krashen foi muito criticada, e parte das críticas pegou.
A primeira é sobre atenção. Para Richard Schmidt, perceber conscientemente uma forma no que você ouve ou lê, o que ele chama de noticing, é a condição para o input virar aprendizado (Schmidt, 1990). O Krashen dava mais peso ao que acontece sem você perceber.
A segunda é sobre produzir. Merrill Swain e Sharon Lapkin defenderam, com dados de alunos, que quem tenta falar ou escrever às vezes percebe um problema, uma palavra que não vem, uma estrutura que não sai, e isso o empurra a reformular a frase. Segundo eles, ao produzir, o aluno às vezes precisa prestar mais atenção à estrutura do que quando só entende (Swain e Lapkin, 1995).
Quarenta anos depois, uma revisão de Karen Lichtman e Bill VanPatten resume o que aconteceu: a teoria foi muito criticada e deixada de lado, mas várias ideias dela continuam na pesquisa com outros nomes, como a diferença entre aprendizado implícito e explícito, o desenvolvimento em ordem e o papel central do input (Lichtman e VanPatten, 2021). O próprio Krashen, no texto de 2022, diz que as conclusões dele ainda são hipóteses.
A minha leitura: a base continua sendo muito input compreensível, e a fala, a escrita e a atenção à forma completam. É por isso que o curso tem técnicas de escutar e ler e também de falar e escrever. Se o que te trava é montar a frase em português antes de falar, veja como pensar em inglês sem traduzir. A diferença entre adquirir e estudar, com o cérebro no meio, está em como aprendemos idiomas.