Traduzir na cabeça é uma fase normal de quem ainda não domina o idioma. No começo, a palavra em inglês está presa à tradução em português, e o caminho até ela é lento. Você para de traduzir quando esse caminho fica rápido, e ele fica rápido com repetição: escutar e ler muito o mesmo material, falar sozinho, escrever sobre o que você viveu e conversar com pouco tempo para pensar. Isso leva meses de prática diária, e dá para acelerar com os exercícios abaixo.
Na aula 1.2 do Guia de Idiomas, o curso que eu lancei em 2020, eu explico por que isso acontece. O que você aprende fica guardado no cérebro, e buscar essa informação depende das conexões entre os neurônios. Quando você está aprendendo, essas conexões são fracas e as buscas são lentas, e é isso que faz você precisar pensar muito antes de falar. Quanto mais você pratica e repete, mais rápidas elas ficam, até a frase sair sem esforço.
O que a pesquisa diz sobre traduzir na cabeça
Os pesquisadores que estudam como o cérebro de quem fala dois idiomas guarda as palavras chegaram a uma ideia parecida. Num modelo bastante estudado, o Modelo Hierárquico Revisado, quem está começando tende a chegar ao sentido de uma palavra do segundo idioma passando pela tradução na língua materna. Com mais domínio, a pessoa passa a acessar o sentido direto (Kroll e outros, 2010). O modelo é de 1994, e há pesquisadores que propõem trocá-lo por outros; os próprios autores reconhecem que ele precisa de revisões, mas defendem que a pergunta central, como a palavra nova se liga ao sentido, continua de pé.
Um experimento com bilíngues de inglês e espanhol, uns mais fluentes e outros menos, mostra a mesma passagem. As pessoas tinham que dizer se uma palavra em espanhol era a tradução certa de uma em inglês. Os menos fluentes tinham mais dificuldade quando a palavra errada tinha a forma parecida com a certa, como hambre (fome) no lugar de hombre (homem), para man. Com os mais fluentes, aconteceu o contrário: a dificuldade maior era com palavras de sentido parecido, como mujer (mulher). Para os autores, com o domínio, a gente passa a se apoiar menos na forma da palavra e mais no sentido (Talamas, Kroll e Dufour, 1999).
Isso ajuda a tirar um peso. Você não desliga a tradução por força de vontade. Ela vai perdendo espaço conforme as ligações diretas entre a palavra em inglês e o sentido ficam fortes, e essas ligações ficam fortes com contato e uso.
Conhecer e dominar
Tem uma diferença que eu uso muito no curso: conhecer uma palavra é ter tido contato com ela, e dominar é conseguir usar. Para quem fala português, o exemplo mais claro é o espanhol. A gente escuta e entende quase tudo, mas na hora de reproduzir, não sai. É a mesma coisa com o inglês de quem entende as séries e trava na conversa.
A gente só consegue falar sem traduzir aquilo que domina. No curso, eu desenho isso como uma bolinha verde, que é o que você já domina, e o trabalho é fazer ela crescer: consumindo mais conteúdo, escutando mais e, claro, falando. Explico a diferença entre conhecer e dominar no texto sobre repetição espaçada.
Exercícios para parar de traduzir
Fale sozinho sobre o seu dia
Pode parecer coisa de doido, mas praticamente todo poliglota fala sozinho. Comece se fazendo perguntas simples e respondendo em voz alta, em inglês: o que você vai fazer hoje, o que tomou no café da manhã, como foi o seu dia. Quando você fala sozinho, percebe onde a frase sai fluida e onde trava, e fica sabendo o que precisa melhorar. No tempo morto, no trânsito e no banho, esse acho que é o que eu mais faço.
Assistir à aulaSe faltar uma palavra, não pare para procurar. Contorne: "the thing I use to cut" no lugar de knife. Contornar já é pensar em inglês. Mais ideias de perguntas estão em como praticar a fala sozinho.
Repita frases junto com o áudio
O shadowing é imitar em voz alta, quase ao mesmo tempo, o que alguém está falando num áudio. Você usa a boca com a frase pronta, no ritmo certo, sem tempo para passar pelo português. O roteiro que eu uso está em shadowing.
Leia e escute o mesmo material muitas vezes
Na aula do método natural eu digo que a repetição é o que leva você do estado passivo para o ativo. É como dirigir: no começo, cada movimento é pensado, e um dia você chega no trabalho sem lembrar como chegou. Ler e escutar o mesmo texto várias vezes, com foco, faz as frases ficarem prontas na cabeça. O jeito de fazer está em como melhorar o listening.
Escreva sobre o que aconteceu
Escrever sobre um tema é a minha técnica favorita de escrita. Escreva algumas linhas em inglês sobre o seu dia, sem se preocupar em ficar bonito. O esforço de buscar a palavra a partir do que você viveu, sem passar por uma frase em português, é o treino. Se você é iniciante, pode escrever primeiro em português para organizar a ideia e depois passar para o inglês. As técnicas estão em como melhorar a escrita em outro idioma.
Use um dicionário em inglês
Quando for procurar uma palavra, experimente um dicionário com a definição em inglês, como o Cambridge Dictionary. Você lê a explicação e os exemplos no próprio idioma, e a palavra nova chega ligada a outras palavras em inglês.
Deixe a legenda em inglês
Assistir com a legenda no idioma liga o som à palavra escrita, sem a tradução no meio. No começo, a tradução ajuda a entender; o objetivo é passar para a legenda em inglês assim que der. Como escolher os vídeos está em como usar o YouTube para aprender inglês.
Converse com pouco tempo para pensar
Na conversa, alguém espera a sua resposta, e o tempo para traduzir some. É desconfortável no começo, e é exatamente isso que treina a resposta direta. Dá para conversar com nativos em apps de troca de idiomas (como praticar com nativos online) ou com IA, por voz (como praticar conversação em inglês com IA).
No Lanna, o modo Falar faz essa conversa por voz sobre o tema do material que você estudou. Você grava a sua fala, vê o que foi entendido, ouve a resposta e, se travar, recebe uma sugestão do que dizer. Como o assunto é o do material, as palavras que você acabou de ver são as que você precisa usar.
E a tradução bidirecional?
Traduzir um texto do inglês para o português e depois de volta, comparando com o original, é uma das técnicas de que eu mais gosto, e ela não briga com a ideia de parar de traduzir na conversa. É um exercício feito sentado, com tempo, para fixar a estrutura do idioma. Na conversa, o que você quer é que essa estrutura já saia sozinha. O passo a passo está em tradução bidirecional.
Quanto tempo leva
Não tenho um número de semanas para parar de traduzir, e desconfie de quem tem. Depende do quanto você escuta, lê e fala, e do idioma que você já fala. Para chegar à fluência, a minha estimativa pessoal é de pelo menos 1 a 2 anos, 3 ou mais dependendo do idioma. No francês, comecei em 2016 e em 2019 já viajava e conversava. No italiano, cheguei ao intermediário em 9 meses de estudo.
E não é uma linha reta. Tem dia em que a frase sai sozinha e dia em que parece que você voltou para trás. Faz parte, como eu conto em mindset para aprender idiomas. Se você entende bem mas sente que parou de evoluir, veja como superar o nível intermediário.