Travar no nível intermediário é normal e tem explicação. No começo, as palavras mais usadas do idioma se repetem o tempo todo, então você aprende muito rápido. No intermediário, as palavras e expressões novas aparecem pouco e só em contextos específicos, e a evolução fica mais lenta e menos visível. Para passar dessa fase, você precisa de mais tempo com o idioma, de conteúdo mais desafiador e variado e de usar o que aprendeu, escrevendo e falando. E de paciência, porque é a fase mais demorada.

Conheço as duas pontas dessa história. No inglês, estudei desde pequeno e fui mal por muito tempo; só melhorei nos últimos anos, quando passei a escutar muito, ler muito e revisar com repetição espaçada. No italiano, cheguei ao intermediário em uns 9 meses de estudo e dei uma pausa. Parei, então, exatamente na fase de que eu falo aqui.

Como aprendemos idiomas, aula 1.2 do Guia de Idiomas Assistir à aula
A aula 1.2 do Guia de Idiomas. A curva de aprendizagem começa por volta de 2 minutos e 40 segundos. Na parte seguinte, sobre a curva do esquecimento, eu falo em 80% esquecidos em um dia; o número certo é cerca de dois terços.

A curva de aprendizagem

Quando a gente começa a aprender um idioma, tem aquela sensação de que explodiu: aprendeu muito, sentiu uma evolução enorme. Quando chega no intermediário, fala que travou. É a curva de aprendizagem. No começo você aprende rápido e chega logo num platô, e evoluir a partir dele fica mais difícil. Vale para qualquer coisa: um instrumento, um esporte, um idioma.

No idioma, o motivo é a frequência das palavras. As mais usadas aparecem em quase toda frase, então você absorve rápido e sente que evoluiu. As que faltam para o próximo nível aparecem pouco, e só em certos assuntos. Dá para ter uma ideia do tamanho disso pela conta do linguista Paul Nation: para conhecer 98% das palavras de uma conversa em inglês, são necessárias de 6 a 7 mil famílias de palavras, e para 98% de um texto escrito, de 8 a 9 mil (Nation, 2006). A maior parte dessas palavras você só encontra se for atrás delas.

E existe uma segunda curva que trabalha contra: a do esquecimento. Na medida clássica de Ebbinghaus, cerca de dois terços do que a gente vê uma vez se perdem em um dia (Ebbinghaus). Palavra rara, que não volta a aparecer sozinha, é a que mais some. Quando e como revisar está no texto sobre repetição espaçada.

Fluência e proficiência

Vale separar duas coisas que a gente costuma chamar pelo mesmo nome. A definição de fluência varia de pessoa para pessoa, mas, em geral, é o nível em que você fala e entende os outros com uma certa tranquilidade. Proficiência é o nível em que você entende e se expressa em contextos mais complexos, e para isso precisa dominar o idioma e ter um vocabulário grande de temas específicos.

A escala do Quadro Europeu, que define os níveis de A1 a C2, mostra bem essa diferença. No B2, a pessoa consegue interagir com fluência e espontaneidade suficientes para uma conversa com nativos sem esforço para nenhum dos lados. No C1, ela se expressa com fluência e espontaneidade sem procurar muito as expressões e usa o idioma com flexibilidade para fins sociais, acadêmicos e profissionais (Conselho da Europa). Muita gente trava justamente aí: já conversa, mas ainda não tem as palavras de cada assunto.

O que fazer para sair do platô

Nessa fase, o jeito de estudar precisa mudar. O que funcionou no começo, repetir as palavras mais comuns, já não traz muita coisa nova. Estes são os pontos que eu considero mais importantes, e servem também para aumentar o vocabulário na língua materna.

Passe mais tempo com o idioma

O progresso está ligado ao tempo que você passa em contato com o idioma. Esse tempo pode ser intencional, quando você senta para estudar com foco, ou não intencional, quando o seu objetivo é escutar um podcast ou ler um livro por prazer. Os dois contam, e no intermediário o segundo fica mais fácil, porque você já entende bastante. Use o tempo morto, no trânsito ou limpando a casa, para escutar um podcast ou assistir a um vídeo.

Na aula 1.3 eu faço uma conta simples: uma aula por semana, quatro semanas por mês e dez meses úteis dão umas 40 horas por ano. Para um idioma, isso é muito pouco, e o tempo total está em quanto tempo leva para aprender um idioma. O próprio Krashen escreveu que a sala de aula pode ser um ótimo lugar para adquirir um idioma pelo menos até o nível intermediário, porque para o iniciante ela dá mais input compreensível do que o mundo lá fora (Krashen, 1982, p. 30). A leitura que eu faço é que, depois dali, o que falta está fora da aula: nos livros, nas séries, nas conversas.

Se desafie com temas novos

As palavras e expressões que vão te levar ao próximo nível aparecem menos, e só em contextos específicos. Então você precisa ir atrás delas, com temas diferentes e mais complexos do que os de sempre. Conteúdo um pouco mais difícil pede mais atenção e mais paciência para entender o que está acontecendo, e é isso que empurra você para cima. Só não passe do ponto: a régua de entender pelo menos uns 80% continua valendo, e explico por que no texto sobre input compreensível.

No Lanna, dá para fazer isso de propósito: você escreve um tema que nunca estudou, escolhe um nível acima do seu e ele monta o texto, com áudio frase a frase. As palavras novas que você salvar voltam nos Flash Cards, e o material entra na agenda de revisão de 1, 3, 5, 7, 15 e 30 dias.

Mais conteúdo autêntico, menos exercício de gramática

Quando você já se expressa e entende o que os outros dizem, o consumo de conteúdo autêntico é o que mais faz você evoluir. É a hora de aumentar o vocabulário, e para isso você precisa de mais exposição ao idioma. Revistas, jornais, blogs, podcasts, vídeos do YouTube e livros, principalmente romances. A gramática continua útil, como apoio para as dúvidas que aparecerem, como eu explico em como aprender gramática de forma natural. Para a leitura, veja como combinar leitura intensiva e extensiva.

Seja ativo

Como as palavras novas se repetem pouco, você precisa colocá-las em vários contextos para elas ficarem. Escreva textos e crie histórias com as palavras que você viu. E fale com estrangeiros, pedindo que falem com você do jeito mais natural possível, como falariam com um nativo, sem simplificar.

Tem pesquisa que ajuda a entender por que isso funciona. Quando você tenta produzir no idioma, às vezes percebe um problema, uma palavra que não vem, uma estrutura que não sai, e isso te empurra a reformular o que ia dizer. Para Swain e Lapkin, o que acontece entre a primeira tentativa e a frase reformulada é parte do aprendizado (Swain e Lapkin, 1995). Só escutando e lendo, esse problema muitas vezes fica escondido.

Para a escrita, as técnicas estão em como melhorar a escrita em outro idioma. Para a fala, em como praticar com nativos online e em como praticar a fala sozinho. E se você entende bem mas ainda monta cada frase em português antes de falar, veja como pensar em inglês sem traduzir.

Seja paciente

Essa é a fase mais demorada, mas é também a que concretiza tudo o que você aprendeu até aqui e te leva para o próximo nível. Nunca existe um fim no aprendizado de uma língua, e todo dia você está um pouco acima de onde estava.

Na aula 1.1 eu comparo o processo com uma maratona. Ninguém corre 42 quilômetros de cara: começa com 2, passa para 5, sofre nos 10, um dia faz a meia maratona e fica quebrado por três dias. A evolução não é uma escadinha. Tem dia em que você absorve tudo e dia em que parece que esqueceu o que sabia. Mas vai ter um dia em que você vai perceber que o seu pior dia é melhor do que o seu melhor de três meses atrás. Mais sobre isso em mindset para aprender idiomas.

Olhe para trás

No intermediário, a evolução fica difícil de ver no dia a dia, e é aí que muita gente desiste. Então olhe para trás e veja o quanto você já consegue falar de um idioma estrangeiro. Uma sugestão minha: grave um áudio de dois minutos falando sobre o seu trabalho ou o seu fim de semana, guarde, e grave de novo sobre o mesmo assunto daqui a três meses. A comparação mostra o que o dia a dia esconde.

E aproveite. Você já tem um bom nível no idioma, e essa é a hora de curtir: ler, assistir, conversar e escrever sobre o que der na cabeça. Para montar os dias, veja como criar uma rotina de estudos.