O mindset que funciona para aprender idioma começa por jogar fora cinco mitos: o do talento, o da fluência em seis meses, o de que só aprende quem mora fora, o de que criança aprende melhor e adulto já passou da idade, e o da memória ruim. Depois vêm as atitudes que seguram você no caminho: saber exatamente por que você está aprendendo, aceitar que é um processo longo, com dias ruins no meio, e se divertir enquanto isso. Eu falo inglês e francês com fluência e cheguei ao intermediário no italiano sem nunca ter morado fora, e com uma memória que, como você vai ver no mito 5, não ajuda em nada.

Mindset para aprender idiomas, aula 1.1 do Guia de Idiomas Assistir à aula
A aula 1.1 do Guia de Idiomas, o curso que eu lancei em 2020. Ela é a base deste texto.

Mito 1: "não tenho talento para idiomas"

Quando a gente olha para o Messi, para a Marta ou para o Mozart, diz que eles nasceram com o dom e esquece todo o processo que eles passaram.

A irmã do Mozart, Nannerl, contou que o pai começou a ensinar a ele minuetos no teclado "no quarto ano de vida", quase como uma brincadeira (relato citado na biografia do compositor). O pai, Leopold, era violinista, compositor e professor de música (Britannica). Aos 20 anos, o Mozart já tinha uns 16 anos de prática, e 16 anos fazendo qualquer coisa é muito tempo. Se você gosta de música e está aprendendo inglês, fica a dica: Amadeus, o filme sobre ele.

O psicólogo John Hayes, da Carnegie Mellon, olhou a carreira de 76 compositores famosos e anotou quando cada obra conhecida deles foi escrita. De mais de 500 obras, só três saíram antes do décimo ano de estudo sério, e essas três no oitavo e no nono ano (Hayes, Cognitive Processes in Creativity). Até os mais talentosos precisaram de uns dez anos de preparação.

Tem também o estudo dos violinistas, de 1993. Três pesquisadores compararam três grupos de estudantes de violino da Academia de Música de Berlim Ocidental, dos melhores aos menos avançados, e viram que os grupos mais avançados tinham acumulado mais horas de prática sozinhos. Os próprios violinistas apontaram o estudo sozinho como o que mais ajudava a melhorar (Ericsson, Krampe e Tesch-Römer, 1993). Foi daí que o Malcolm Gladwell tirou a "regra das 10 mil horas" do livro Fora de Série.

Uma replicação de 2019 refez o estudo com mais cuidado e achou um efeito menor. Os dois grupos melhores também tinham, aos 20 anos, mais de 10 mil horas de prática sozinhos em média, mas essa prática explicou 26% das diferenças de desempenho, contra 48% no estudo original (Macnamara e Maitra, 2019). Um quarto das diferenças ainda é muita coisa, e é justamente a parte que depende de você. Eu não tenho como provar que talento não existe. O que eu vejo é que ele pesa bem menos do que o tempo e a dedicação na hora de decidir quem vai falar outro idioma.

Mito 2: "vou ficar fluente em seis meses"

Fluência em seis meses é uma técnica para vender curso, ponto final. Além de falsa, essa promessa frustra. Você chega ao sexto mês, percebe que não fala como queria, acha que o problema é você e desiste. Você não é pior do que ninguém: chegar lá em seis meses é muito difícil, quase impossível.

Então rasgue essa ideia. A minha estimativa pessoal, sem estudo por trás, é contar com pelo menos um, dois anos para ficar fluente, três ou mais dependendo do idioma. No francês, levei uns três anos: comecei em 2016 e em 2019 já viajava e conversava. No italiano, que é muito próximo do português, cheguei ao intermediário em nove meses de estudo e dei uma pausa. Parece muito tempo, mas tirar a pressão dos seis meses deixa o caminho bem mais leve. As contas por hora de estudo estão em quanto tempo leva para aprender um idioma.

Mito 3: "só aprende quem mora fora"

Eu nunca morei fora. Viajei, conversei com gente de lá, mas aprendi daqui de São Paulo.

Morar no país ajuda, claro, porque você passa o dia inteiro escutando e vivendo o idioma. Mas hoje, com YouTube, podcast, aplicativo e curso online, dá para ter muito contato com o idioma dentro de casa e chegar a um nível muito alto. Dá até para conversar com nativos sem sair do sofá, e eu mostro como em como praticar com nativos online.

Mito 4: "criança aprende melhor" e o primo dele, "estou velho demais"

A criança tem duas vantagens de verdade. A primeira é tempo: contando umas cinco horas de contato por dia, uma criança de cinco anos já passou mais de 9 mil horas com a língua (5 horas vezes 365 dias vezes 5 anos). É uma vantagem que a gente, adulto, não tem no dia a dia. A segunda é que ela não tem medo de errar. Fala errado, pergunta errado, tenta de novo e vai melhorando. Isso a gente deveria ter mais, e dá para ter.

A idade pesa num ponto específico. Um estudo com quase 670 mil pessoas, entre falantes nativos e não nativos de inglês, estimou que a capacidade de aprender a gramática de um idioma fica praticamente intacta até perto dos 17 anos e depois cai de forma constante (Hartshorne, Tenenbaum e Pinker, 2018). Isso ajuda a explicar por que quem começa adulto raramente chega a falar exatamente como um nativo. Não diz que o adulto não aprende.

O adulto tem vantagens que a criança não tem. Ele já conhece os conceitos em português, então, quando aprende "mortgage", só precisa da palavra nova, porque a ideia de hipoteca ele já tem. Sabe por que está estudando. E pode escolher o método e o material, em vez de depender de anos de imersão. O cérebro adulto também muda com o estudo: em 2012, pesquisadores suecos mediram o cérebro de recrutas que passaram três meses estudando um idioma de forma intensa para virar intérpretes e viram crescer o hipocampo e áreas do córtex ligadas à linguagem, em comparação com um grupo de controle (Mårtensson et al., 2012).

Eu comecei o francês em 2016, já adulto. E eu nasci em São Paulo, moro aqui há 37 anos e ainda cometo erros em português, então não vejo sentido em exigir perfeição de mim num idioma estrangeiro. O objetivo de um idioma é entender e ser entendido, e isso está ao alcance de quem começa adulto.

Mito 5: "minha memória é péssima"

A minha memória é, digamos, seletiva. Já cheguei em casa sem a chave e já esqueci várias vezes onde tinha parado o carro no shopping. E eu me distraio muito fácil: se não deixo o meu canto de estudo pronto antes de sentar, qualquer coisa me tira do foco. Mesmo assim cheguei à fluência no inglês e no francês.

O que faz a memória guardar um idioma é exposição, repetição no intervalo certo e emoção. Explico como o cérebro aprende em como a gente aprende um idioma, e por que a gente esquece tão rápido, com os números da pesquisa, em repetição espaçada.

Atitude 1: saiba por que você está aprendendo

Com os mitos fora do caminho, o próximo passo é definir o porquê. Pode ser o emprego que você sempre quis, morar fora, entender melhor um país ou conhecer outras pessoas.

Com o objetivo claro, você entende por que está fazendo aquilo, e a motivação vem junto. Sem ele, estudar vira "eu tenho que ir na aula", e ninguém se mantém anos estudando por causa disso. No plano de estudos eu transformo esse porquê numa folha que fica na parede (como montar um plano de estudos).

Atitude 2: entenda que é um processo

Se você quiser correr uma maratona, não vai correr uma maratona de cara. Começa com uma corridinha de 2 km, passa para 5, sofre para fazer os seus 10. Um dia faz uma meia maratona, fica quebrado por três dias e pensa em desistir. Até que, depois de muito treino, sono e alimentação, faz a maratona.

O caminho tem altos e baixos: tem dia em que você corre menos do que no anterior. Com idioma é igual. Tem dia em que você absorve tudo e dia em que parece que esqueceu tudo. Mas eu te garanto que vai chegar o dia em que o seu pior dia vai ser melhor do que o seu melhor dia de três meses atrás.

E processo pede frequência. Todo santo dia você precisa ter contato com o idioma. Uma ou duas horas por semana, dia sim, dia não, não funciona. Para encaixar isso na vida real, veja como criar uma rotina de estudos.

Atitude 3: divirta-se, porque emoção grava

Um teste rápido: o que você comeu no almoço da terça-feira passada? E com quem foi o seu primeiro beijo?

A não ser que você esteja lendo isto numa terça à tarde, aposto que só a segunda você lembra. As emoções têm um papel fundamental no que fica na memória.

Aprendendo italiano, eu fui atrás de coisas de que eu gostava. Descobri o Jovanotti, um cantor italiano muito conhecido, e um dia, treinando na academia com o fone no ouvido, percebi entre um exercício e outro que tinha entendido a música inteira. Fiquei uns três minutos parado, sem treinar, só escutando e entendendo. Foi um dos momentos mais legais que eu tive estudando italiano. Também achei gente legal para conversar em aplicativos e conheci o Just Mick, um canal no YouTube que fala de comportamento humano, um assunto de que eu gosto muito. Encontrei em italiano o que eu já fazia em português. Como o italiano é próximo do português, deu para começar esse tipo de conteúdo relativamente rápido. Conto mais sobre esse caminho em como aprender italiano sozinho.

Faça o que você gosta. Se você gosta de ioga, veja ioga no idioma. Está aprendendo violão? Faça o curso no idioma que está estudando e toque as músicas de que você gosta, juntando o útil ao agradável.

Atitude 4: faça o que você já sabe que precisa fazer

Todo mundo sabe que precisa comer bem, se exercitar e maneirar na bebida, e nem todo mundo faz. Com idioma é a mesma coisa: você já sabe boa parte do que precisa fazer. Falta colocar na cabeça que é importante e fazer.

Deixo três perguntas para você responder com calma, de preferência por escrito:

  1. Quais atividades você deixou de fazer e sabe que te fariam bem?
  2. Você alguma vez tentou, de verdade, colocá-las na sua vida?
  3. Como resolver isso do jeito mais eficaz, sem gastar muito tempo nem energia?

Com essas respostas em mãos, o próximo passo é escolher as técnicas e montar a rotina. O caminho completo está no método para aprender um idioma sozinho.