Para montar um plano de estudos de idiomas, você responde três coisas, nesta ordem: por que está aprendendo e quanto tempo vai dar ao idioma, que técnicas e materiais vai usar em cada habilidade, e em que momentos do dia tudo isso vai acontecer. No Guia de Idiomas, o curso que criei em 2020, essas três partes tinham nome: o worksheet, o plano de estudo e a rotina. Era o módulo que fechava o curso, o que junta tudo. Abaixo está cada parte, com as perguntas do worksheet para você preencher e um calendário de 30 dias para marcar o que estudou.
Assistir à aulaOs quatro pilares
O plano se apoia em quatro pilares:
- Motivação: saber por que você quer aprender e ir atrás desse objetivo.
- Tempo exposto ao idioma.
- Diversão. O processo tem que ser legal de seguir, sem peso.
- Um sistema de aprendizagem.
O quarto é o que mais falta. Sem sistema a gente trava, não sabe o que fazer, fica dando scroll no Instagram o dia inteiro e conclui que não tem tempo para aprender. Com um sistema que guia, você senta e já sabe o que fazer.
Parte 1: o worksheet
O worksheet é uma folha com as informações do seu processo de aprendizagem. Ele existe para você nunca perder de vista por que começou. Sem isso, aprender o idioma vira só mais uma coisa no seu dia, do tipo "eu tenho que ir na aula", e ninguém se mantém anos estudando por causa disso. O porquê precisa ser maior do que o idioma: um emprego, morar fora, entender melhor um país, conhecer gente.
Copie estas perguntas numa folha e responda com as suas palavras:
- Por que eu quero aprender esse idioma?
- Quantas horas de estudo por dia vou dedicar a ele?
- Em que horário do dia vou estudar?
- Por quanto tempo vou seguir essa rotina até chegar ao meu objetivo?
- Em que outros momentos do dia vou ficar em contato com o idioma?
- Em que habilidades eu preciso focar, e por quê?
- Que técnica vou usar em cada habilidade: escuta, leitura, escrita, fala, gramática e vocabulário?
As cinco primeiras são as que eu passava na aula. As duas últimas aparecem no exemplo preenchido, logo abaixo, e vale a pena responder também.
Este é o exemplo que eu usava na aula, de alguém que quer morar na França. Serve só para ilustrar:
Vou aprender a falar francês porque quero morar na França. Para isso, vou estudar uma hora todo dia, todas as manhãs, durante um ano, porque daqui a um ano é quando eu quero ir. Vou escutar enquanto vou e volto do trabalho, e ler no almoço e antes de dormir. Preciso focar em compreensão e fala, porque é o que vou usar quando morar em Paris. Técnicas: vídeos e podcasts para a escuta; tradução bidirecional para a escrita; falar sozinho e com nativos para a fala; leitura intensiva de manhã e extensiva à noite; gramática, vou consultar quando tiver dúvida; vocabulário, vídeos e repetição espaçada para não esquecer.
Preenchido, cole na parede do quarto, ou de onde você estuda, para olhar sempre. Principalmente nos dias em que der vontade de parar. Falo mais sobre o porquê e os mitos que atrapalham em mindset para aprender idiomas.
Parte 2: o plano de estudo
O plano de estudo é o que você vai estudar: que técnicas vai usar e com que materiais. Ele é montado em cima do estudo intencional, aquele em que você senta com foco, anota, pesquisa e tira dúvida. As horas de estudo intencional que você colocou no worksheet é que ditam o plano.
O estudo não intencional (o podcast no trajeto, a série, o livro lido de boa) também entra todo dia, e precisa ser maior. Se você tem uma hora de estudo com foco, pode passar outras duas escutando o idioma no modo não intencional, para fortalecer o que já aprendeu.
Escolha as técnicas pelo seu nível. Na escuta, comece com materiais mais simples. Na leitura, o iniciante começa pela intensiva, com foco e anotação, e vai para a extensiva, a leitura por prazer, quando o nível sobe. Na fala, se você ainda é iniciante, conversar com alguém fica para outro momento: comece por técnicas que você já consegue fazer sozinho. Vale o mesmo para a escrita e a gramática.
As técnicas do curso, por habilidade:
| Habilidade | Técnicas | Onde eu explico |
|---|---|---|
| Escuta | vídeos e podcasts no seu nível; escutar e ler ao mesmo tempo | listening |
| Leitura | intensiva, com anotação; extensiva, por prazer | leitura intensiva e extensiva |
| Escrita | tradução bidirecional; escrever sobre um tema | tradução bidirecional, escrita |
| Fala | shadowing; falar sozinho; conversar com nativos | shadowing, falar sozinho, nativos online |
| Gramática | consultar quando tiver dúvida; vídeo de explicação no idioma | gramática |
| Vocabulário | vídeos e música; repetição espaçada | vocabulário, repetição espaçada |
Escolha técnicas do seu nível e de que você goste, e fique nelas por pelo menos 60 dias. Nesse tempo você aprende a usar a técnica e passa a dominar, e depois fica tudo muito mais fácil. Se você troca de técnica toda semana, nenhuma tem tempo de funcionar.
O material também entra aqui. Ele precisa ser compreensível (você entende pelo menos uns 80% do que escuta ou lê), interessante para você e com as características certas para o seu nível: duração, velocidade, legenda. Detalho isso em como escolher o conteúdo certo.
Parte 3: a rotina
A rotina é o que mantém você no trilho durante meses. Aprender um idioma não acontece de um dia para o outro, não existe mágica, e sem rotina a dedicação do começo acaba.
Na aula eu mostrava duas rotinas do nível intermediário. A primeira, com 30 minutos de estudo intencional:
- Ao acordar, 30 minutos com foco: escutar e ler ao mesmo tempo, mais as revisões espaçadas. É o estudo intencional do dia.
- No banho, 10 minutos falando sozinho.
- No caminho para o trabalho, a faculdade ou a escola, um podcast durante o trajeto.
- À tarde, um livro, uma revista ou um jornal.
- Na volta, o mesmo material da ida, por mais 30 minutos.
- Antes de dormir, assistir alguma coisa ou ler.
Fora os 30 minutos de mesa, são mais 100 minutos de contato com o idioma, e no total passa de 2 horas por dia. Compare com uma horinha de aula por semana.
A segunda rotina é igual, com uma técnica a mais de manhã: tirar as dúvidas de gramática. O estudo intencional sobe para 60 minutos, o resto do dia continua o mesmo, e o total vai para 160 minutos, perto de 2h40. Se você tiver uma hora toda manhã, é fantástico.
A rotina que eu mesmo usava, com os blocos e a minha resposta para quanto estudar por dia, está em como criar uma rotina de estudos.
Acompanhe o que você fez
Marque todo dia o que você estudou. No curso eu passava um calendário de estudos para isso. O arquivo original se perdeu, então refiz o calendário aqui embaixo. Depois de um tempo você olha a folha toda preenchida e pensa: caramba, eu me dediquei mesmo, e está dando resultado.
O desafio que eu fazia no fim da aula continua valendo: preencha o calendário pelos próximos 30 dias, com tudo o que você estudou. No fim, compare o seu nível de 30 dias atrás com o de agora.
Copie a tabela num caderno ou imprima esta página. Em cada dia, anote os minutos de estudo com foco, os minutos de contato fora da mesa (trajeto, banho, leitura de boa) e o que você estudou, por exemplo "leitura intensiva de um artigo e revisão das palavras da semana". No fim de cada semana, some os minutos.
| Dia | Com foco (min) | Fora da mesa (min) | O que eu estudei |
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| 30 |
Se preferir não usar papel, a tela Progresso do Lanna mostra a sua sequência de dias seguidos de estudo, os minutos que você passou ouvindo no dia e quantas atividades você fez de cada tipo na semana.
Quando mexer no plano
Mexa nas técnicas quando o seu nível mudar, respeitando os 60 dias. Chegou a hora de trocar a leitura intensiva pela extensiva, ou de começar a conversar com nativos, quando o que você faz hoje ficou fácil. Se o problema for o material chato, troque o material e mantenha o plano: estudar com o que você gosta é o pilar da diversão.
Para ter noção de quantos meses tudo isso leva, veja quanto tempo leva para aprender um idioma. E nos dias difíceis, volte ao worksheet e leia o seu porquê. Como eu dizia no fim da aula, não tem fórmula mágica. O método que eu ensino é o que funcionou para mim, com os meus idiomas.