Uma rotina de estudos de idiomas que funciona junta duas coisas: um tempo curto de estudo com foco, todo dia, e o máximo de contato com o idioma nos momentos em que você já está fazendo outra coisa, como o caminho do trabalho, o banho ou o almoço. Em 2020, quando criei o Guia de Idiomas, era a rotina que eu usava para aprender e manter os meus idiomas: cerca de 2h30 por dia, e só meia hora disso sentado estudando. É ela que eu mostro aqui, bloco por bloco.
No começo de qualquer aprendizado a gente está muito motivado. Nas duas primeiras semanas passa horas e horas com o objetivo novo. O problema é quando essa motivação vira pressa, e a pressa cria uma expectativa tão alta que qualquer decepção deixa tudo frustrante. A rotina serve para isso: você sabe que todo dia vai passar um pouco de tempo com o idioma, e esses poucos, somados em semanas e meses, sobem o seu nível sem pressão.
Os dois tipos de estudo
O estudo intencional é aquele em que você senta, pega o material, caderno e caneta, e presta atenção ponto a ponto. Anota, busca tradução, pesquisa, tira dúvida. É o que todo mundo chama de estudar.
O estudo não intencional é o tempo que você passa com o idioma sem aquela atenção toda: um podcast no ônibus, uma série, um livro lido de boa no sofá, uma música. Você fica com o idioma e quase nem percebe que está estudando. Ele é o mais esquecido quando se fala de idiomas, e numa rotina pode ser bem maior do que o intencional. Além de mais fácil, pra muita gente é a parte mais gostosa.
Os dois precisam acontecer todo dia, e o não intencional deve ser o maior. Se você tem uma hora de estudo com foco, pode passar outras duas escutando o idioma ao longo do dia.
A minha rotina, bloco por bloco
Era a rotina de quem acorda, vai para o trabalho de manhã e volta à noite:
| Quando | O que eu fazia | Tipo de estudo | Tempo |
|---|---|---|---|
| Manhã | estudo com foco, logo ao acordar | intencional | 30 min |
| Manhã | falando sozinho no banho, ou escutando música | não intencional | 10 min |
| Manhã | escutando e falando no caminho do trabalho | não intencional | 40 min |
| Tarde | lendo no almoço do trabalho | não intencional | 20 min |
| Noite | escutando e falando na volta do trabalho | não intencional | 40 min |
| Noite | lendo antes de dormir | não intencional | 15 min |
| Total | 30 min intencionais e 125 não intencionais | 155 min |
No material de 2020 eu chamava de rotina de 2,5 horas, mas a soma dá 2h35. Fica aqui o número certo.
Repare que a única meia hora de mesa é a da manhã. Dos 155 minutos, 30 eram de estudo intencional, uns 19% do total. Os outros 125 aconteciam em tempo que eu já gastava de qualquer jeito. Falar sozinho no banho e no trânsito, aliás, era o que eu mais fazia, e continua sendo uma das técnicas que eu mais uso.
Quanto tempo vai para cada habilidade
Somando a mesma rotina por habilidade:
| Habilidade | Minutos por dia |
|---|---|
| Escuta | 80 |
| Leitura | 35 |
| Fala | 25 |
| Escrita | 15 |
| Total | 155 |
A escuta ganha de longe, e de propósito. A ideia era passar o maior tempo possível exposto ao idioma, escutando no tempo morto, para melhorar a compreensão e ganhar domínio da língua. Explico por que eu começo pela escuta em como melhorar o listening.
Quanto estudar por dia
A minha resposta: de 30 a 60 minutos de estudo com foco, todo dia, e o máximo de tempo morto que couber. Na minha rotina, o tempo fora da mesa passava de duas horas. Se num dia só couberem 15 minutos, faça 15, porque o hábito continua. Só não conte com 15 minutos como plano, porque com eles as horas demoram anos para somar.
A conta que me faz dizer isso: no Guia de Idiomas eu usava 600 horas como referência. O número fica dentro da faixa que o FSI, o instituto de idiomas do Departamento de Estado americano, publica para francês, italiano e espanhol: de 552 a 690 horas de aula, para quem fala inglês, num curso em tempo integral (Departamento de Estado dos EUA). A conta foi feita para quem fala inglês, então não prevê o seu caso (explico isso em quanto tempo leva para aprender um idioma), mas dá a escala. Veja quanto tempo leva para somar 600 horas em cada ritmo:
| Por dia | Até somar 600 horas |
|---|---|
| 15 minutos | uns 6 anos e meio |
| 30 minutos | uns 3 anos e 3 meses |
| 1 hora | uns 20 meses |
| 2 horas | uns 10 meses |
| 2h35, a minha rotina | uns 7 meses e meio |
| 1 aula por semana | 15 anos |
A última linha é a conta do jeito tradicional, que eu fazia na aula: uma aula por semana, quatro semanas por mês, dez meses por ano, 40 horas por ano. É por isso que tanta gente passa anos na escola de idiomas e não fala. E é por isso que o tempo morto pesa tanto: sem ele, você precisaria de horas de mesa que quase ninguém tem.
Nem toda hora vale igual, claro. Uma hora de podcast que você entende pela metade rende menos do que uma hora com um material no seu nível. A tabela serve só para ver a escala.
Um pouco todo dia ou muito no sábado
Não adianta passar uma hora por semana, duas horas por semana, dia sim, dia não. Todo santo dia você tem que ter contato com o idioma. Eu falava isso na primeira aula do curso e continuo falando.
A primeira razão é o esquecimento. No experimento clássico de Hermann Ebbinghaus, que decorava, ele mesmo, listas de sílabas sem sentido e media o trabalho para reaprender, depois de 24 horas ele precisava refazer cerca de dois terços do esforço para recitar a lista de novo (Ebbinghaus, capítulo 7). Quem estuda só no sábado passa a semana perdendo o que viu. Quem estuda todo dia revê amanhã o que viu hoje.
E rever depois de um intervalo ajuda. Num estudo com mais de 1.350 pessoas, dar um tempo antes da revisão melhorou a lembrança até certo ponto, e o melhor intervalo foi maior para quem precisava lembrar por mais tempo (Cepeda et al., 2008). Uma revisão anterior, com 317 experimentos, já tinha visto que o intervalo que deixa mais lembrança cresce junto com o tempo que você quer lembrar (Cepeda et al., 2006). Tem mais sobre isso no texto sobre repetição espaçada.
A segunda razão é o hábito. Num estudo que acompanhou 96 voluntários criando um hábito novo, o tempo até o comportamento chegar perto do automático variou de 18 a 254 dias, e perder um dia no meio não atrapalhou de forma importante (Lally et al., 2010). Então conte com meses até a rotina ficar automática, e não se desespere com um dia perdido.
Tempo morto e tempo livre
Tempo livre é aquele em que você não tem nada para fazer e decide como usar: o almoço, um domingo de manhã tranquilo. Tempo morto é quando você está fazendo outra atividade, mas ainda sobra atenção para o idioma. Na minha rotina, o almoço e a leitura antes de dormir eram tempo livre. O banho e o caminho do trabalho eram tempo morto.
Onde costuma ter tempo morto:
- No metrô, no trem ou no ônibus. A sua atenção não vai estar 100% ali (senão você perde a estação), então escute um conteúdo que você já estudou, para fortalecer o que aprendeu. Se você passa 30 minutos na ida e 30 na volta, já é uma hora de contato com o idioma no dia.
- No carro. Se você estiver sozinho, ou não tiver vergonha do passageiro, dá para cantar, escutar podcast repetindo o que a pessoa fala e falar sozinho: crie uma história, faça perguntas e responda.
- No táxi ou no Uber, como passageiro: ler um pouco ou escutar um material que você já conhece. Se você for o motorista, fique só no áudio.
- No banho: falar sozinho. Conto como eu faço em como praticar a fala sozinho.
- Limpando a casa ou cozinhando: podcast, música, cantar junto.
A regra que eu seguia: no tempo morto, conteúdo que você já estudou com foco. É repetição sem esforço. O material novo, que pede atenção, fica para o estudo intencional. Dá até para fazer shadowing no carro, com o mesmo áudio que você estudou de manhã.
Como montar a sua
- Olhe o seu dia e marque os momentos em que você está fazendo outra coisa com atenção sobrando: trajeto, banho, cozinha, academia. Esse é o seu tempo morto. Se você trabalha de casa e não tem trajeto, ele está na cozinha, na faxina, no banho.
- Escolha um horário fixo para o estudo com foco, de 30 a 60 minutos. Na minha rotina era logo ao acordar.
- Distribua as habilidades pelos momentos: escuta no trajeto, leitura no tempo livre, fala no banho e no carro, escrita e material novo na mesa.
- Deixe tudo pronto na noite anterior (tem mais sobre isso logo abaixo).
- Anote todo dia o que você fez. Em algumas semanas você vai ter a prova de que evoluiu.
O Lanna, o app que eu construo desde agosto de 2023, cuida de duas partes dessa rotina. Cada material que você cria nele ganha uma agenda de revisão para 1, 3, 5, 7, 15 e 30 dias depois, e o áudio fica no modo Escutar e ler para você escutar de novo no caminho, como pede a regra do tempo morto.
Na aula de plano de estudos eu mostro mais duas versões dessa rotina, com 30 e com 60 minutos de estudo com foco, e como escolher as técnicas de cada habilidade: está em como montar um plano de estudos.
Nove cuidados para o tempo com foco render
Eu me distraio muito, muito fácil. Se eu não me preparo, qualquer coisa que aparece na minha frente me tira do foco, eu tenho certeza. Por isso, antes de estudar, eu deixo o meu canto pronto. Estas são as nove dicas da aula do curso sobre isso:
Assistir à aula- Um espaço só para estudar, longe de videogame, televisão e trabalho.
- Água e lanche do lado. Se eu desço para pegar água, a chance de eu sentar no sofá e não voltar é enorme.
- Arrume a bagunça. Por mais que pareça que ela não atrapalha, ela enche o seu campo de visão.
- Celular no modo avião, e música só se for a música que você está estudando. Se você é do tipo que abre uma aba e vai parar no YouTube, baixe o material antes e desligue a internet.
- Fone de ouvido. Com família barulhenta em casa, ou no ônibus, ele ajuda o foco e não atrapalha ninguém.
- Faça pausas. Horas seguidas cansam e derrubam a vontade. Levante, pegue água, tome um ar e volte com a cabeça fresca.
- Separe o material na noite anterior. Cinco minutos antes de dormir: a aba do site já aberta, caderno e caneta do lado, o fone por perto. Na hora, é só sentar e começar.
- Estude com o que você gosta. Material chato faz você parar. Quando comecei o italiano, os meus temas eram música, esporte, notícias e cultura de outros países.
- Anote num caderno o que você estudou, todo dia. Depois de um tempo o montinho de anotações vira um montão, e você vê que evoluiu.
Nos dias ruins
Vai ter dia em que você absorve tudo e dia em que parece que esqueceu o que sabia. Aprender idioma nunca é uma escadinha reta, e está tudo bem. Se num dia você não estiver no clima, desencane do estudo com foco: escute as suas músicas favoritas no metrô e cante no banho. Continua sendo tempo com o idioma, e no dia seguinte a rotina volta.