A inteligência artificial ajuda a aprender inglês em cinco frentes: escrever um texto no seu nível sobre o assunto que você escolher, conversar com você por texto ou por voz a qualquer hora, corrigir o que você escreve explicando cada erro, dar uma nota de pronúncia frase a frase e organizar a revisão do que você aprendeu. Ela não faz o trabalho que continua sendo seu: escutar e ler muito material real que você entende, voltar a ele muitas vezes e usar o idioma com gente de verdade. A pesquisa mostra um efeito positivo, que depende bastante de como a ferramenta é usada.
Quando eu lancei o Guia de Idiomas, em 2020, o ChatGPT ainda não existia. Ele foi lançado em 30 de novembro de 2022 (OpenAI). O que destravou o meu inglês foi escutar muito, ler muito, repetir e revisar com repetição espaçada, tudo sozinho, sem curso regular. No curso eu ensinava esse método, mas via que o trabalho de achar o material certo, transcrever e montar exercícios continuava todo com o aluno. Foi para fazer essa parte que eu comecei a construir o Lanna, em agosto de 2023, e hoje eu estudo com ele.
Assistir à aulaO que a pesquisa mostra até agora
A pesquisa sobre IA no ensino de idiomas é recente, mas já existem algumas meta-análises, que juntam os resultados de vários estudos.
Uma delas reuniu 28 estudos sobre chatbots no aprendizado de idiomas. Em média, quem estudou conversando com um chatbot teve resultado melhor do que quem estudou sem ele. O tamanho do efeito variou com o nível escolar dos alunos, o nível deles no idioma, o desenho da ferramenta e o quanto ela conseguia de fato interagir (Wang e outros, 2024).
Outra juntou 15 estudos sobre reconhecimento de voz no treino de pronúncia de quem aprende inglês. O efeito médio foi positivo e ficou maior quando a ferramenta mostrava o erro de forma explícita. Os ganhos foram grandes nos sons e pequenos na entonação e no ritmo. Uso curto não fez diferença. E um detalhe que eu acho importante: praticar com colegas teve efeito grande, e praticar sozinho, pequeno (Ngo, Chen e Lai, 2024).
A leitura que eu faço é que a IA rende mais quando mostra o erro com clareza e é usada por semanas, de preferência com alguém do lado.
Onde a IA ajuda, habilidade por habilidade
Escutar e ler: material no seu nível
A IA escreve um texto no seu nível sobre qualquer assunto, ou simplifica um texto que está difícil. Isso resolve um problema antigo, que é achar material compreensível e interessante ao mesmo tempo. Mas texto gerado não substitui ouvir gente de verdade, na velocidade normal, com sotaque e pausa. Use os dois, e mantenha a régua que eu uso para tudo: entender pelo menos uns 80%. A teoria por trás está no texto sobre input compreensível, e o material real, em como usar o YouTube para aprender inglês.
Falar: conversa sem plateia
Quando algum aluno do Guia de Idiomas me dizia que estava travado para falar, eu sempre perguntava quantas vezes por semana ele falava o idioma. Quase todo mundo respondia que não praticava. A conversa por voz com IA resolve a parte do volume: dá para falar todo dia, sem vergonha e sem marcar horário. O modo de voz do ChatGPT faz isso, o Duolingo Max tem a Video Call, uma chamada com uma personagem do app (Duolingo) e o Speak tem cursos de inglês para quem fala português (Speak). Como montar essa prática está em como praticar conversação em inglês com IA. Conversa com gente continua sendo o passo seguinte: veja como praticar com nativos online.
Pronúncia: uma nota por frase
Aqui entra o reconhecimento de voz: você grava a frase e a ferramenta mostra o que ela entendeu. O ELSA Speak, só para inglês, dá retorno a cada som (ELSA). Pela meta-análise acima, vale usar por semanas e, se der, com alguém ouvindo junto. E lembre que o objetivo da pronúncia é ser entendido, como eu explico em como melhorar a pronúncia.
Escrever: correção que explica
Um assistente de IA corrige um texto seu e explica cada erro em português. É um dos usos mais úteis, desde que você escreva primeiro e peça a correção depois. A própria OpenAI avisa que o ChatGPT pode dar respostas erradas e soar confiante mesmo assim (OpenAI), então confira em outra fonte qualquer regra que você for decorar. Os prompts de correção, conversa e roleplay estão em como usar o ChatGPT para aprender inglês.
Gramática: a dúvida do dia
No curso, a gramática entra quando aparece uma dúvida no meio do que você está lendo ou ouvindo. A IA é boa para isso: você pergunta só aquela dúvida, com exemplos, em vez de pedir uma aula inteira de gramática. O primeiro prompt abaixo é para esse caso.
Vocabulário: revisar na hora certa
O que você vê uma vez só tende a sumir. A saída é revisar em intervalos cada vez maiores, como eu explico em repetição espaçada. O Anki faz isso de graça no computador e no Android (Anki).
Dois prompts para começar
Troque o que está entre colchetes pelo seu caso. São modelos, para adaptar.
1. A dúvida de gramática
Explique em português a diferença entre [present perfect] e [simple past]. Meu nível é [B1].
1. Explique em no máximo 3 frases.
2. Mostre 5 exemplos, cada um com a tradução.
3. Diga quais erros um falante de português costuma cometer com isso.
4. Me dê 5 frases para eu completar escolhendo a forma certa. Espere as minhas respostas antes de corrigir.
O item 3 é o que mais ajuda: boa parte das dúvidas de quem fala português vem de uma estrutura que funciona de um jeito aqui e de outro lá.
2. A entrevista de emprego
Simule uma entrevista de emprego em inglês para a vaga de [analista de marketing]. Você é o entrevistador. Meu nível é [B2].
Faça uma pergunta por vez, começando por "Tell me about yourself".
Depois de cada resposta minha: diga em inglês se foi uma boa resposta, mostre em português os erros que eu cometi e me dê uma versão melhor da minha resposta.
Use antes de uma entrevista de verdade, respondendo em voz alta. Os seis prompts do post sobre o ChatGPT cobrem conversa, correção de texto, roleplay, escrever sobre um tema, tradução bidirecional e falar sozinho.
O que a IA ainda não faz bem
- Cultura e registro. Saber se uma frase soa formal demais, grosseira ou estranha num contexto real ainda é mais fácil com gente do que com IA.
- Motivação. A IA não percebe que você está a ponto de desistir e não comemora com você o dia em que entendeu um episódio inteiro.
- A causa do erro. Ela costuma corrigir a forma, mas nem sempre mostra que o erro vem de uma estrutura do português que você está trazendo para o inglês.
- A confiança errada. Uma explicação dita com segurança pode estar errada, e você não tem como saber sem conferir.
- A dependência. Num estudo com 50 estudantes de inglês, 12 semanas de ensino apoiado no ChatGPT melhoraram a escrita e a motivação, mas os próprios alunos disseram ter medo de ficar dependentes (Song e Song, 2023).
Um método com IA
Com IA ou sem, o método é o mesmo que eu ensinava: material que você entende e de que gosta, muito tempo com ele, prática ativa e revisão. Todo santo dia. A IA encurta o caminho em cada passo:
- Escolha um material real no seu nível, ou peça um texto sobre um assunto de que você gosta, e estude com foco, lendo enquanto escuta.
- Use o mesmo tema para produzir: converse sobre ele por voz e escreva um parágrafo, pedindo correção só depois de tentar.
- Grave as frases do material e treine a pronúncia das que saíram mais baixas.
- Revise as palavras novas nos intervalos certos e volte ao material nos dias seguintes.
No Lanna, esses passos acontecem em cima do mesmo material. Você parte de um tema, de um texto ou de um vídeo curto do YouTube, escolhe o nível e o material passa pelos 8 modos: Escutar e ler, Treinar pronúncia (com a porcentagem das palavras da frase que o reconhecimento de voz entendeu), Escrever, Falar (a conversa por voz sobre o tema do material, com sugestão de resposta), Conversar, Quiz, Gramática e Flash Cards. As palavras salvas voltam nos Flash Cards, e o material entra numa agenda de revisão de 1, 3, 5, 7, 15 e 30 dias.
Para montar os horários, veja como criar uma rotina de estudos. As técnicas de cada habilidade, com ou sem IA, estão no método para aprender um idioma sozinho.