Para melhorar a pronúncia do espanhol, o brasileiro precisa largar alguns hábitos do português e aprender poucos sons novos. Os hábitos são abrir o e e o o, deixar nasal a vogal antes de m e n, trocar o e e o o do fim por i e u, fazer "tch" e "dj" antes de i, dar som de z ao s entre vogais, falar o v com os dentes no lábio e transformar o l do fim em u. Os sons novos são a jota, o r vibrado de "perro" e, na Espanha, o z e o c com a língua entre os dentes. Falta a sílaba forte: muita palavra parecida com o português tem a força em outro lugar, e a tilde mostra onde.

Os exemplos seguem a pronúncia do centro e do norte da Espanha. Onde a América Latina ou o sul da Espanha falam de outro jeito, o texto avisa, e essas pronúncias também são corretas. As regras vêm do Diccionario panhispánico de dudas (DPD), da Real Academia Española (RAE).

Por que o português aparece no seu espanhol

A boca segue os hábitos da primeira língua. Na sílaba forte, o português tem sete vogais orais, com o é e o ó abertos, e o espanhol tem cinco (Filoda, Ferreira-Gonçalves e Brisolara, 2017). O e e o o do espanhol variam um pouco de abertura, mas isso nunca muda o sentido, como muda em "avô" e "avó". O resto vem de regras que o português aplica sem a gente perceber.

Os sons, um a um

O e e o o, sem o aberto do português

Em "café", "hotel" e "sol", o português abre a vogal. No espanhol, o e e o o ficam no meio do caminho, mais perto do ê de "você" e do ô de "avô": café, hotel, sol, nota. Num estudo com 30 alunos de Letras-Espanhol da Universidade Federal do Ceará, abrir demais foi bem mais comum do que fechar demais, sobretudo na conversa livre (Silva, 2012).

A vogal antes de m e n sai pela boca

No português, a vogal antes de m ou n fica nasal: em "campo" e "cama", parte do ar sai pelo nariz. No espanhol, ela continua oral na maior parte das palavras, e o n soa como consoante, com a ponta da língua encostando atrás dos dentes de cima. Num estudo com seis alunas brasileiras de Letras e seis falantes nativas do Uruguai, as uruguaias fizeram o a de palavras como "campo" com som oral, e as brasileiras, com som nasal (Brisolara, Matzenauer e Seara, 2019).

Isso pesa no "ão". Muitas palavras que terminam em "-ão" no português têm, no espanhol, uma vogal seguida de n: canción, corazón, avión, pan. O fim é um o (ou um a) oral e depois um n de verdade, sem o ditongo nasal de "canção" e "pão".

O e e o o do fim continuam e e o

Em boa parte do Brasil, o e e o o átonos do fim viram i e u: "leite" sai "leiti", e "carro" sai "carru". No espanhol, eles continuam e e o: noche, leche, grande, como, mucho. A RAE recomenda evitar esse fechamento (DPD, e; DPD, o). Num estudo com aprendizes de Rio Grande (RS), cidade onde o e do fim sai i quase sempre no português, os alunos com três anos ou mais de espanhol já faziam a diferença entre as duas línguas (Los Santos e Alves, 2017).

O t e o d antes de i

Em boa parte do Brasil, o t de "tia" sai "tchia", e o d de "dia" sai "djia". No espanhol, eles continuam t e d, com a ponta da língua nos dentes de cima: tía, tiempo, día, médico. Numa pesquisa com 12 alunos de espanhol da Unifesp, em São Paulo, o "tch" e o "dj" diminuíram nos níveis mais altos, mas continuaram aparecendo em palavras como "plástico" e "médico" (Conceição, 2024).

O s entre vogais não vira z

No português, o s entre vogais soa z: "casa", "mesa", "Brasil". No espanhol, a letra s representa sempre um som surdo, sem vibração na garganta (DPD, s): casa, mesa, cosa e Brasil soam com "ss". Para treinar, faça um "sss" comprido, como quem pede silêncio, e encaixe no meio da palavra: "ca-sss-a".

O z e o c antes de e e i

No centro, no norte e no leste da Espanha, o z e o c antes de e e i soam com a ponta da língua entre os dentes (DPD, z; DPD, c): gracias, cerveza, zapato, cinco, hacer. É o som do th de "three", que tem o passo a passo em como melhorar a pronúncia em inglês. Por isso, na Espanha, casa e caza (caça) são palavras diferentes. Na América Latina, nas Canárias e em parte da Andaluzia, o z e o c soam s, e essa pronúncia, o seseo, tem aceitação total na norma culta (DPD, seseo).

O v soa como b

No espanhol, o b e o v têm o mesmo som. A RAE diz que não é próprio da língua fazer o v com os dentes de cima no lábio de baixo, e que "baca" e "vaca" se pronunciam exatamente igual (DPD, v). Vino, vivir e Valencia começam com os dois lábios se tocando, como no b.

A jota, e o g antes de e e i

A jota do espanhol soa diferente do j de "janela". Na Espanha central, ela é um som raspado, feito com a parte de trás da língua perto de onde a gente faz o k, e o g antes de e e i soa igual (DPD, j; DPD, g): jamón, ajo, jefe, gente. No sul da Espanha, nas Canárias e em boa parte da América, a jota vira um sopro, parecido com o h do inglês, e a RAE registra essa pronúncia também. Na tese sobre os alunos do Ceará, esse som apareceu no lugar da jota e dos dois r, e no r ele atrapalha (Silva, 2012).

O r de "pero" e o de "perro"

O espanhol tem dois r (DPD, r). O fraco, uma batida rápida da língua, é o mesmo r de "caro" no português e aparece entre vogais e depois de consoante na mesma sílaba: cara, pero, brazo. O forte, vibrado, com a ponta da língua batendo várias vezes atrás dos dentes de cima, aparece no começo da palavra, depois de l, n e s, e no rr: Roma, rojo, alrededor, Enrique, perro. A troca muda a palavra: pero (mas) e perro (cachorro), caro e carro.

O vibrado é o som mais difícil. Num estudo com 22 alunos de Letras do Rio Grande do Sul, no terceiro semestre, ele saiu certo em 57% das vezes, contra 89% do r fraco e 81% da jota (Simioni, Dutra e Duarte Filho, 2019). Para treinar, comece pelo r de "caro", que você já faz, e repita a batida várias vezes seguidas, com a língua solta. O r do fim, como em comer e señor, é o fraco e não some: a RAE trata "señó" como pronúncia a evitar na fala cuidada.

O l do fim é l

Na maior parte do Brasil, o l do fim vira u: "Brasil" sai "Brasiu". No espanhol, o l é l, com a ponta da língua encostada atrás dos dentes de cima (DPD, l): Brasil, papel, hotel, español. Numa pesquisa com oito alunos de Letras-Espanhol de Fortaleza, o l do fim saiu como l em 9 de cada 10 vezes, mas o u continuou aparecendo mesmo depois de vários semestres de curso (Costa, 2013).

O ll e o y

Hoje, a maioria de quem fala espanhol pronuncia o ll igual ao y: calle, llamar, playa, yo. Esse fenômeno, o yeísmo, é aceito na norma culta (DPD, yeísmo). Em algumas regiões e na fala de algumas pessoas, o ll ainda soa parecido com o lh do português (DPD, ll), e na Argentina e no Uruguai os dois soam perto do j de "janela" ou do ch de "chave" (DPD, y).

A sílaba forte e a tilde

Muita palavra é quase igual nas duas línguas e tem a força em outro lugar. A tilde marca a sílaba forte, e as palavras sem tilde seguem duas regras (DPD, tilde): se terminam em vogal, n ou s, a força cai na penúltima sílaba; se terminam em outra consoante, na última. As que têm a força na antepenúltima levam tilde sempre.

EspanholSílaba fortePortuguês
policíapo-li-CÍ-apolícia (po-LÍ-cia)
academiaa-ca-DE-miaacademia (a-ca-de-MI-a)
nivelni-VELnível (NÍ-vel)
cerebroce-RE-brocérebro (CÉ-re-bro)
límiteLÍ-mi-telimite (li-MI-te)
teléfonote-LÉ-fo-notelefone (te-le-FO-ne)

Como treinar: um som por semana

Escolha um som por semana. Nos dias de treino, ouça as palavras daquele som num áudio de nativo, repita cada uma exagerando a diferença, grave a frase da tabela e compare a gravação com o original. A palavra que saiu diferente é o treino do dia seguinte.

SomFrase para gravar
O e e o oEl café del hotel es bueno.
A vogal antes de m e nTambién canto una canción en el campo.
O e e o o do fimEsta noche tomo un café grande.
O t e o d antes de iTengo tiempo todo el día.
O s entre vogaisLa casa de Rosa es preciosa.
O z e o cGracias por la cerveza.
O vVivo en Valencia y bebo vino.
A jotaEl jefe de Juan come jamón.
Os dois rEl perro de Ramón corre rápido.
O l do fimEl hotel de Brasil es genial.
O ll e o yAyer llamé desde la playa.
A sílaba forteLa policía llamó por teléfono.

O método de ouvir e repetir está em como melhorar a pronúncia em outro idioma; com um áudio corrido, o passo seguinte é o shadowing, e para levar os sons para frases suas ajuda falar sozinho.

No Lanna, crie um material colando as frases da tabela como texto, e cada frase ganha áudio. No modo Treinar pronúncia, você grava a sua versão e recebe a porcentagem das palavras que o reconhecimento de voz entendeu, com o texto que ele ouviu. O sotaque fica de fora da nota: o é aberto e o s com som de z costumam passar, e para eles vale comparar a gravação com o áudio. Toda conta nova começa com um teste de 7 dias, sem cartão de crédito, e nele dá para criar até dois materiais.

Os erros de gramática e de vocabulário, como muy e mucho, gustar e os dois passados, estão em erros comuns de brasileiros no espanhol. E, se você ainda não sabe em que nível está, o teste de nível de espanhol leva uns 5 minutos, tem uma parte de fala e mostra as armadilhas do português que apareceram nas suas respostas.