Material para aula de inglês com adultos precisa de três coisas: o aluno entende uns 80% dele, o assunto tem a ver com a vida dele e o formato deixa ler e escutar ao mesmo tempo. Vídeo curto com legenda feita pelo criador, podcast com transcrição e notícia adaptada por nível cumprem as três. Abaixo estão os seis critérios que eu ensinava no Guia de Idiomas, aplicados a quem escolhe pelo aluno, um teste de dois minutos antes de mandar qualquer coisa, seis lugares para achar material com áudio e texto, e como transformar o que você escolheu em aula.

Eu não dou aula. O que eu sei sobre material vem de aprender inglês, francês e italiano sozinho e do Guia de Idiomas, o curso que criei em 2020, em que a aula sobre o material ideal era uma das primeiras. Os alunos do curso me procuravam para saber o que estudar, e a resposta quase sempre começava pelo material errado: longo demais, difícil demais ou sem nada a ver com a vida da pessoa. Quem dá aula particular escolhe material toda semana, e para outra pessoa. A régua tem que ser a do aluno.

Material ideal para aprender idiomas, aula 1.5 do Guia de Idiomas Assistir à aula
A aula do Guia de Idiomas sobre o material ideal: as três qualidades, as seis características e as três fases. Os 80% são a régua que eu uso; o Krashen, citado na aula, não fixa percentual.

A régua é a do aluno

No curso, a regra é uma só: a pessoa precisa entender pelo menos uns 80% do que lê ou escuta. Abaixo disso, o material vira ruído. Ela pega o tema, perde o resto e sai da aula achando que inglês é difícil demais para ela.

Esse número é a régua do curso, e nenhum estudo fixa esse percentual. A ideia vem do linguista Stephen Krashen: a gente adquire um idioma quando entende mensagens um pouco além do que já sabe (Krashen, 1982, p. 21). Ele não diz quanto é esse entender. Na pesquisa sobre leitura, a régua costuma ser mais alta: um estudo muito citado calculou que, para ler por prazer sem ajuda, a pessoa precisa conhecer cerca de 98% das palavras do texto (Hu e Nation, 2000), e uma replicação de 2023 com 104 adultos não conseguiu reproduzir o resultado por completo (Kremmel et al., 2023). A diferença entre 80% e 98% é o que você faz na aula: com você do lado, traduzindo uma palavra, fazendo um gesto, voltando o áudio, o aluno aguenta um material mais difícil do que aguentaria sozinho. Para o que ele estuda em casa, sem você, vale a régua dos 80%.

O erro mais comum é escolher pelo seu nível. O vídeo que você acha claro pode estar 30% acima do aluno, e você só descobre na aula, quando ele para de responder. Por isso o teste de dois minutos, mais abaixo.

Os seis critérios, na ordem que eu ensinava

Compreensível e interessante são o começo. Na aula 1.5, eu separo as partes mais técnicas do material em seis características. Aqui elas viram perguntas para você fazer antes de mandar o material:

  1. O áudio está em inglês? Escutar é uma das chaves da aprendizagem, desde o primeiro dia. Texto sem áudio serve para a leitura, mas a aula de conversação precisa de som.
  2. Tem texto ou legenda em inglês? Ler enquanto escuta liga o som à palavra escrita, o que ajuda a compreensão e a pronúncia. No YouTube, prefira a legenda feita pelo criador. O próprio YouTube avisa que a automática pode diferir do que foi dito por causa de pronúncia, sotaque, dialeto ou barulho de fundo (ajuda do YouTube).
  3. A velocidade cabe no aluno? No começo do inglês, fala lenta. Se o material é bom e só a velocidade atrapalha, diminua a velocidade no player em vez de trocar o material.
  4. É curto? Um vídeo de 1 a 3 minutos já traz muita coisa nova para quem começa, e vídeo curto dá para repetir várias vezes. A repetição é outra chave da aprendizagem, e ninguém repete um vídeo de 20 minutos.
  5. O tema acompanha a fase? Ninguém vai aprender sobre lançamento de foguete ou regra de golfe na primeira semana. No início, conversas reais e assuntos do dia a dia; depois, o que o aluno gosta e o que ele precisa.
  6. Ele entende pelo menos 80%? Em qualquer nível, sempre.

Os critérios mudam com a fase do aluno. No curso, eu divido o aprendizado em três fases: na primeira, a pessoa está se conectando com o idioma; na segunda, já entende e consegue se expressar um pouco, sem conforto; na terceira, fala e entende a maior parte dos assuntos sem muito esforço. Para o inglês, que fica longe do português, o material de cada fase é assim:

Fase 1: se conectandoFase 2: ficando confortável
LegendaEm inglês, com tradução, para chegar aos 80%Só em inglês
VelocidadeLenta, para absorver a pronúnciaNormal
Duração1 a 3 minutosVídeos um pouco mais longos e podcasts
TemaFrases simples, conversas curtas, exemplos de pronúnciaO que interessa ao aluno, expressões do dia a dia

Na terceira fase, a régua continua a mesma: 80% a 90% de compreensão, e o material vira o que a pessoa consumiria em português.

Interessante é sobre a vida dele

Material simples e material infantil são coisas diferentes. Um adulto na fase 1 precisa de frase curta e fala lenta, mas sobre coisas de adulto: o trabalho, a viagem que ele vai fazer, o que ele assiste. Na aula, eu insisto que a pessoa goste de quem está assistindo, porque é isso que faz ela passar mais tempo com o mesmo canal e, no fim, com o idioma. Para o professor, isso vira uma pergunta na primeira aula: o que você vê, lê e ouve em português? A resposta é a lista de temas do semestre.

Um aluno que trabalha com logística aprende mais com um vídeo de dois minutos sobre atraso de entrega do que com um diálogo de restaurante. Uma aluna que vai a um congresso em outubro precisa do inglês de apresentação, de pergunta no fim da palestra e de conversa no café. Quando o tema é a vida dele, a aula deixa de ser sobre inglês e passa a ser sobre o que ele vai fazer com o inglês.

Vale o contrário também. Se você não se identifica com o material, ou o aluno faz cara de tédio no primeiro minuto, troque sem culpa. É melhor perder dois minutos trocando do que uma aula inteira empurrando.

Um teste de dois minutos antes de mandar

Escolher pelo aluno tem um risco: você conhece o material, e ele não. Antes de mandar qualquer coisa, faça isto na própria aula:

  1. Toque um minuto sem legenda e peça para o aluno contar, em português, o que ouviu. Se veio só o tema, o material está acima do nível dele para estudar sozinho. Guarde para a aula, com você do lado, ou troque.
  2. Conte as palavras que ele não conhece em cem palavras do texto. Mais de vinte, e a régua dos 80% já foi. É uma conta simples, mas resolve a maior parte das escolhas erradas.
  3. Confira a legenda. No YouTube, a automática aparece marcada como gerada automaticamente; a do criador, só com o nome do idioma.
  4. Corte o trecho. Se o vídeo é bom e tem dez minutos, o aluno estuda dois. Os outros oito ficam para as semanas seguintes.
  5. Pergunte se ele assistiria aquilo em português. Se a resposta for não, o material passa nos outros quatro itens e mesmo assim não vai durar.

Onde achar material com áudio e texto, para adultos

A dificuldade de achar material bom para adulto é que muito do que existe pronto é para criança ou para escola. Estas seis fontes têm áudio com texto, servem para adulto e estavam ativas em 28 de setembro de 2026:

Duas dicas do curso que valem para todas: fique com uma fonte por um tempo, porque o aluno se acostuma com o jeito de falar de quem ouve e entende cada vez mais, e depois varie de autor e de assunto, para trazer palavras novas e fortalecer as que ele já tem.

Do material à aula

Escolher é a metade do trabalho. A outra metade, que toma o tempo do professor, é transformar o vídeo ou o texto em algo que o aluno estuda: separar as frases, traduzir, montar o exercício, gravar o áudio quando o material é só texto. No Guia de Idiomas eu ensinava o método, mas esse trabalho continuava com o aluno. O Lanna nasceu para fazer essa parte, e para o professor ele funciona assim:

O material continua sendo escolha sua, e a régua dos 80% também. Pegue o vídeo da próxima aula, passe pelo teste de dois minutos, crie o material a partir dele e mande como tarefa. Na aula seguinte, você vê onde o aluno travou antes de começar. O passo a passo com um vídeo está em como transformar um vídeo do YouTube em aula, e o resto da semana do aluno, entre uma aula e outra, no guia de como dar aula de inglês online.